Análise – The Forgotten City

“Você está bem? Está um pouco quieto hoje”, me perguntaram em plena segunda de manhã. Sim, eu tendo a ser lento nas segundas-feiras. Todo mundo é, mas a segunda específica em que ouvi essa pergunta era especial. Eu tinha passado as últimas doze horas tentando desvendar todos os mistérios de The Forgotten City (Steam / Xbox / PlayStation), e havia dito a mim mesmo que não iria parar até chegar ao final. A última vez que isso aconteceu foi em Disco Elysium.

Longe de mim comparar Disco Elysium com The Forgotten City. São propostas diferentes e produtos de empresas bastante distintas, embora o ponto de partida de The Forgotten City tenha sido também um RPG. A sua versão “original” era um mod para Elder Scrolls V: Skyrim, ao qual eu nunca dei atenção, e por isso não tenho como traçar comparações. A versão comercial troca a Gamebryo em favor da Unreal Engine 4 e te coloca em uma ambientação greco-romana.

Você presumirá que o meu interesse por adventures — vide a minha paixão por Unavowed e jogos como Strangeland e Paradise Killer — transbordaria para a temática de Forgotten City nos primeiros minutos. O que aconteceu foi o contrário; eu me senti perdido, sem saber para onde ir, tentando encontrar conexões que não existiam. Isso, até onde pude ver, é proposital.

A história começa com uma mulher te resgatando de um rio, dizendo que você estava desacordado e que não encontrou nada nos seus bolsos salvo uma moeda antiga. Ela está preocupada pois “Al”, um homem que ela resgatou um certo tempo antes de você, encontrou ruínas que aparentavam ser de uma antiga cidade romana, decidiu investigá-las e até então não havia dado sinal de vida. Eu, prontamente, decidi ajudá-la. Quando adentrei as cavernas me deparei com o corpo de Al, agora uma estátua de ouro, e uma placa que avisava dos perigos de atravessar o templo de Proserpina. Claro que eu não dei atenção aos avisos, entrei no templo, um túnel do tempo se abriu e fui levado para o passado. Céus, eu estou em uma cidade e voltei mais de 2000 anos no tempo!

The Forgotten City
Sentius é um dos primeiros personagens que você conhece, e há muitas coisas interessantes e inesperadas vindo de alguém que está preocupado com a cidade e sua filha.

Um simpático homem chamado Galerius me olha de cima abaixo com um olhar estranho e diz que eu devo ser uma das “novas pessoas” a encontrarem a cidade. Ele me leva para o Magistrado da cidade, Sentius, que me explica a regra de ouro – literalmente – da cidade. “Todos pagarão pelo pecado de um”; não é permitido roubar, matar, machucar o outro. Essa é a “Golden Rule”, e o magistrado acredita que no dia que você chegou lá essa regra irá ser quebrada e todas as pessoas irão morrer. Junto a isso, a filha dele havia desaparecido, e eu devia investigar tanto os habitantes da cidade quanto encontrar o paradeiro da filha. Uma tarefa e tanto!

Qual foi a primeira coisa que fiz? Roubar 1000 denarii para ver o que acontecia. Todas as estátuas de ouro da cidade tomaram vida e me perseguiam; eu consegui chegar com vida no templo de Proserpina com a esperança de que o portal ainda estivesse lá. Adentrei o portal, voltei no tempo para o início do dia e ainda consegui manter os 1000 denarii.

“Hmm… ok, isso está ficando interessante”, disse a mim mesmo enquanto imaginava as ramificações de criar loops temporais, mas ainda era cedo demais para chegar a alguma conclusão sobre o efeito deles sobre os habitantes da cidade; sequer tinha falado com eles.

Como se fosse Midas, a Mystery Traveller pega a história desses habitantes e a cidade em si e transforma tudo em ouro. Por mais que The Forgotten City dê claros indícios de que esse é o primeiro projeto comercial da desenvolvedora – com algumas atuações que ficam abaixo do esperado e um ligeiro desequilíbrio na iluminação de certas cenas – ela mais do que compensa com a trama e a atenção aos detalhes.

A cidade em si não é muito grande, mas é estruturada de forma que você nunca se sinta perdido. Sempre há um caminho ali ou acolá que vai te levar para um ponto inicial, como se fosse uma versão “espacial” do loop temporal (existe a opção de ativar waypoints em certas quests e opções de acessibilidade para as legendas caso você necessite). O impacto dela é amplificado pela atenção aos detalhes, na forma como cada edifício tem a sua própria identidade, nas diferenças entre as classes sociais que estão presentes na cidade. Não sei dizer ao certo a “precisão histórica” – além do que eu sempre recomendo não usarem jogos como base de aprendizado histórico – mas é um feito exemplar independentemente da resposta.

The Forgotten City
A Modern Storyteller capricha nos detalhes da cidade de The Forgotten City

O maior atrativo são os habitantes; cada um deles tem a sua própria história, contam como descobriram ou chegaram até a cidade, suas dores de cabeça em relação à atitude do Magistrado e seu posicionamento em relação à “Golden Rule” e à própria situação em que se encontram. Alguns desejam sair de lá, outros a veem como uma “salvação”, tal como um pequeno grupo de cristãos que, após o fogo de Roma, viram a cidade como um refúgio seguro.

Entrar em detalhes sobre a vida de cada um desses personagens seria entrar em território de spoilers – o que eu quero evitar ao máximo, pois jogar The Forgotten City é algo especial. Não tardou para que as histórias dos habitantes começassem a se interligar com a trama da viagem no tempo, mas essas linhas eram tênues demais para eu conseguir chegar a alguma conclusão. Quem, afinal, iria quebrar a Golden Rule? Eu peguei um quadro em branco (virtual é claro) e comecei a traçar linhas, tentar encontrar parâmetros, situações onde uma pessoa podia ligar-se a outra.  Teria o mercador Desius, que quer um arco para se defender seja lá do que, de alguma forma ligado a Rufios, um legionário que anda estranho por motivos desconhecidos?

Boa parte dessas respostas são dadas pelo próprio jogo, e até as mais simples e diretas são elevadas pela excelentíssima escrita da Modern Traveller. Não é um adventure que te faz se sentir “esperto”, mas também não é um que te dá as coisas de bandeja. O quadro em branco foi um exagero da minha parte, mas ajudou a dar estrutura à teia de acontecimentos que rolavam na cidade — The Forgotten City não tem nenhum puzzle, mas requer um baita trabalho dedutivo da sua parte. E quanto mais linhas eram postas nessa imensa teia, mais eu mergulhava e admirava o que a Modern Traveller havia criado.

Fiquei embasbacado com o trabalho meticuloso de como algumas respostas poderiam ser obtidas via múltiplas soluções, de como alguns twists na história estavam bem na minha cara mas eu não tinha prestado atenção ou notado as nuances. Eu diria que das últimas cinco horas finais para frente foi um vai e vem de “Eita”, “nossa”, ou “pera, como assim? Não, não é possível”.

The Forgotten City
Lucretia, uma das habitantes da cidade que eu poderia passar horas ouvindo suas histórias.

Quando coloquei a última linha que faltava nessa imensa teia, e desbloqueei o quarto dos quatro finais disponíveis, eu devo dizer que não fiquei tão contente com a resolução. Mas isso, assim como esse texto inteiro, é subjetivo. Não diminui de forma alguma o trabalho da Modern Traveller. Os outros três finais são fantásticos e me deixaram cada vez mais boquiaberto quando eu os liberava. Isso tudo vindo de uma desenvolvedora minúscula em seu primeiro trabalho comercial.

The Forgotten City, ainda que tenha seus deslizes ali e acolá, conseguiu me transportar para uma cidade e fazer com que seus cidadãos fossem meus amigos. Conseguiu fazer com que eu me importasse com eles e com as histórias que eles tinham para contar. Com frequência me via com vontade de puxar uma cadeira e ficar cada segundo ouvindo Galerius falar sobre a agricultura da cidade, ou ver a médica Lucretia atuando. São poucos os jogos que mexem comigo dessa forma, e The Forgotten City foi capaz disso.

Eu não sei qual é o futuro da Modern Storyteller; tampouco sei se The Forgotten City irá agradar a todos, já que, diferente do protagonista, eu não posso viajar no tempo. Todavia, espero que esse seja o começo de uma excelente jornada para a desenvolvedora. Ao menos com certeza colocou ela no meu radar. E se você for nessa viagem do tempo, vá com os olhos fechados e de preferência sem nenhum guia. Te garanto que vai valer a pena.

The Forgotten City

Total - 9.5

9.5

As arestas pontiagudas de uma pequena equipe de desenvolvimento pouco incomodam na imersão e na excelente ambientação de The Forgotten City. Entre pela história, fique pelos habitantes, pelos twists e pela incrível cidade que a Modern Storyteller criou. Mergulhe fundo nesse adventure e saia renovado lembrando que o gênero ainda tem muito a dar. São grandes as chances de esse ser um dos melhores de 2021.

Análise – The Forgotten City

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.