Análise – Roguebook

Você já jogou Nethack? De todos os roguelikes “clássicos” e “tradicionais”, ele é de longe um dos mais frustrantes. Uma hora você está em um andar se sentindo vitorioso, no andar seguinte é devorado por algum monstro 10 vezes mais poderoso que você. Se esta experiência pudesse ser ligada diretamente a um deckbuilder, uma das minhas escolhas seria Roguebook (Steam)

Produzido pela Abrakam Entertainment, criadores de Faeria, com envolvimento de Richard Garfield, Roguebook é em partes um deckbuilder roguelike tradicional e uma mistura de exercício em frustração e possível masoquismo. Aliás, falo isso de uma maneira bastante positiva.

Se você olhar de relance você vai de fato ver mais um “deckbuilder” no Steam. Mais um com um sistema de gemas como o de Vault of the Void e o uso de personagens e posicionamento como Banners of Ruin — no caso de Roguebook, os ataques tendem a ser sempre no personagem que está na frente. Mesmo dentro desses estereótipos um pouco já batidos do gênero, a Abrakam conseguiu criar algo não só competente quanto cativante.

Parte do lado cativante está diretamente ligado com alguma experiência prévia em Faeria – o qual ainda considero um dos ccgs mais divertos que já joguei pelo seu sistema de uso de terreno. Muitos dos personagens, monstros e áreas foram transpostas para Roguebook de uma maneira incrível e suas habilidades adaptadas para um deckbuilder roguelike.

Roguebook
“Pintar” os mapas é um misto de “será que vem coisa boa?” com “Putz, me ferrei de novo”

Já a parte competente vem da exploração do mapa. No fundo ele não é mais do que uma maneira “diferenciada” de você chegar do ponto A ao ponto B como em Slay The Spire ou similares. Todavia, seguir esse caminho é morte certa já que contém poucas batalhas e poucas chances de obter cartas. A melhor forma de expandir o seu arsenal é pelo uso de pincéis e tintas para literalmente pintar o mapa.

Essa decisão de design tomada pela Abrakam é uma imensa faca de dois gumes. Para quem está acostumado com roguelikes mais tradicionais, entrar em um mapa gerado proceduralmente e saber que você tem grandes chances de perder uma partida caso não haja um item necessário, isso “faz parte do jogo”. Em Roguebook você pode pintar boa parte do mapa e ainda não possuir moedas de ouro, cartas que façam uma boa sinergia com os seus personagens, ou gemas para avançar para a próxima área.

Embora isso seja mitigado com um sistema de metaprogressão onde é possível desbloquear fontes de energia, maiores poderes para o seu personagem, ou a garantia que você irá começar com um item especial no seu repertório, isso ainda é muito dependente de como o mapa é gerado.

Uma das “melhorias” que eu desbloqueei foi a chance de encontrar um mercador que podia trocar uma carta do meu baralho por uma mais potente e incluir uma gema. Foram dezenas de partidas até eu “pintar” a área certa e encontrá-lo. É claro que isso me frustrou, mas parte de mim falava “bem, faz parte do jogo”.

Roguebook
Mas aí você pega um combo como esses e tudo fica bem!

Mas eu sou o ponto fora da curva, a pessoa que já perdeu personagem em Tales of Maj’Eyal depois de vinte horas de jogo e soltou um “putz, essa foi uma jogada horrível, por que eu fiz isso?”. Para a grande maioria eu vejo o sistema como uma gigantesca “perda de tempo” e um grande motivo para abandonar Roguebook de vez. Isso sem contar no “grind” que é liberar a metaprogressão com itens mais raros, mais ouro por run, ou subir os personagens de níveis e encontrar novas cartas.

Na verdade, Roguebook só começa de verdade quando o jogo acaba; só então você libera a quarta personagem – Aurora – e começa o New Game+ com histórias e mais eventos. É aí que o sistema de cartas e sinergia brilha mesmo.

Ao contrário da maioria dos deckbuilders roguelikes, Roguebook não te incentiva a remover cartas do seu baralho; pelo contrário, ele te incentiva a ter muitas cartas para desbloquear talentos e usar gemas. A ideia, que veio de Garfield, não é só muito bem implementada como interessantíssima de se ver em ação. Você pode criar decks onde a sua pilha de descarte diminui a quantidade de energia que uma carta custa, aumentar o dano de personagens específicos, ou até dar buffs em cartas que geram aliados.

Eu ainda estou bem longe de desbloquear todo o conteúdo de Roguebook, mas umas das sinergias que eu consegui fazer foi com Sorocco – um tank – e Seifer, um DPS. Houve uma vez em que a sorte sorriu para mim e me deu uma boa dose de cartas de aliados e cartas que aumentavam o seu poder de ataque. Resumo: ganhei as duas primeiras áreas praticamente usando as defesas de Sorocco e as cartas de aliados que Seifer possuía. Vou conseguir fazer essa sinergia acontecer de novo? Eu não tenho a menor ideia.

E pode se preparar para muita, mas muita metaprogressão, e ela pode salvar algumas das suas runs.

Esse é o maior prazer que eu tiro de Roguebook, por mais bizarro que isso possa soar. O desconhecido, o ato de pintar o mapa e torcer para que venha algo bom na minha frente ao invés de ficar seguindo linhas retas e desenvolvendo táticas para derrotar inimigos (isto ainda está presente em Roguebook, mas de uma maneira muito mais maleável). De pegar uma carta nova e descobrir um combo que eu sequer tinha ideia que funcionaria. Roguebook é um livro, é um grande mistério; é isso que faz com que eu me sinta mais atraído por ele do que jogos como Slay The Spire, por mais que algumas áreas – como o sistema de melhoria de cartas – sejam mais diretas do que Roguebook.

Minha duas maiores críticas vão para a pequena variedade de inimigos, ou melhor, a pouca variação de seus ataques, já que o único deckbuilder roguelike recheado de inimigos que conheço é Erannorth Reborn, e eu não imagino que muitos tenham o interesse de aprender o seu complexo sistema de regras. A outra vai para o preço praticado no Brasil, muito fora da realidade do nosso país. Apesar que, bem, se eu começar a mencionar isso eu vou ter de colocar em todas as minhas críticas. Entretanto, um preço regional mais amigável seria muito bem-vindo.

Conhecendo o trabalho da Abrakam há anos, eu não tenho dúvidas de que Roguebook irá evoluir, trazer novas cartas e inimigos, seja via atualizações ou DLCs pagos. Se algo, este foi o pontapé inicial de um deckbuilder incrivelmente competente e que faz o suficiente para se diferenciar de tantos outros que existem por aí. Se for pegar, faça isso de mente aberta e entenda que muitas runs vão acabar muito antes de começar — portanto, acenda velas para os deuses do RNG.

E por falar em Richard Garfield, aproveitem e façam o favor de pegar Spectromancer – de longe o melhor trabalho dele, e eu gostaria de mais companhia no multiplayer :(.

Roguebook

Total - 8

8

Roguebook pode exagerar no RNG e parecer até um pouco “simples” por conta de sua estética. Mas não se engane; dentro dele há um competente deckbuilder com algumas mecânicas diferentes – como a ausência de remoção de cartas do seu baralho – e combos e sinergias que são algo raro de se ver por aí. Só se prepare para perder muitas rodadas até pegar as manhas de alguns conceitos avançados.

Análise – Roguebook

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.