Análise – Megaquarium: Freshwater Frenzy

Conversa vai, conversa vem, e o assunto jogos de gerenciamento tende a surgir na minha roda de amigos e amigas. Um deles me apontou sobre Anno 1800 e as suas expansões, mais especificamente o segundo passe de temporada. De acordo com ele, a multitude de mecânicas introduzidas — como Bright Harvest e seus tratores — traz pouco retorno em comparação com o absurdo investimento de material necessário. Não só concordo como vejo um padrão dentro desse gênero, de adicionar mecânicas sobre mecânicas e nem sempre entender se elas condizem com a proposta original do jogo. Freshwater Frenzy (Steam), o primeiro e até então único de DLC de Megaquarium, escapa dessa armadilha.

Antes de mais nada é importante salientar que se você jogou Megaquarium no lançamento, se prepare pois muita coisa mudou desde então. A lista de melhorias desde 2018 é gigante demais para listar aqui; algumas das adições são suporte ao Steam workshop, refinamento no desempenho, novos tipos de funcionários, aquários maiores, espécies de peixe criadas pela comunidade e por aí vai.

Freshwater Frezny se adapta a esse novo estilo de jogadores — aqueles que querem construir um aquário dos sonhos ao invés de ter completar múltiplos objetivos ao longo de uma campanha. As missões que o acompanham servem como um “tutorial” para você aprender como cuidar dos mais de 30 novos peixes de água doce e outros tipos de animais da expansão. Coloco aspas no tutorial para não enganá-los; as missões são tão desafiadoras quanto as missões finais do jogo base – ao ponto do jogo te alertar que é melhor começar pela campanha original para pegar o jeito do que pular direto para a expansão. Estendo aqui a recomendação.

Terminar a expansão com apenas mapas de campanha já teria sido um final competente para Megaquarium; todavia, dada a sua estrutura “aberta” oferecida pelo modo sandbox, a Twice Circled redobra os esforços para tornar o sandbox ainda mais interessante sem que ele caia nos males de jogos como Cities: Skylines. Se algo, o modo sandbox consegue ser ainda mais desafiador do que ambas as campanhas juntas.

Freshwater Frenzy
Eles não são adoráveis?

Cruzamento de espécies pode ser o melhor exemplo disso; os peixes não só precisam de um habitat como cuidados específicos, já que a própria natureza deles altera drasticamente como eles interagem com outras espécies, sejam eles peixes de água salgada ou doce. É aqui que a Twice Circled, que jamais escondeu seu lado político — assim como fez em Big Pharma e o “difícil” equilíbrio de lucrar ao invés de curar dentro da indústria farmacêutica — apesar do visual descompromissado, revela os perigos de tais métodos.

Métodos que não se estendem apenas a peixes, mas a outros tipos de animais — veja por exemplo Pugs, Bengals e outras raças surgidas pelo cruzamento de espécies até que se tenha o “animal perfeito”, a utopia humana personificada na ideia de ser um Deus. Saliento aqui que não sigo nenhuma religião, mas também tenho ciência dos malefícios que esse cruzamento entre espécies pode causar.

Entretanto, não é sempre que essas condições surgem; outras espécies podem ser cruzadas sem “problema” algum e você ganha “bônus” de beleza quando seus visitantes vêem uma espécie com padrões diferentes. Neste lado Megaquarium retém muito do que o tornou um exímio exemplo de gerenciamento; tais bônus não são obtidos só pelo aspecto visual, mas o pH da água, alimentação dos peixes, gerenciamento de seus funcionários e como você está cuidando do aquário de maneira geral.

Freshwater Frenzy
Sim, jacarés estão presentes e ai de você não ter um na sua exibição

Outros jogos de gerenciamento teriam colocado os novos peixes e não incluído as mecânicas para o jogo base. A Twice Circled redobra os esforços para que nada fique “fora do lugar”. Se fosse o caso do já mencionado Cities: Skylines, alguma nova mecânica ia sobrepor a anterior, ia causar um transtorno imenso e te forçaria a reajustar todo o seu aquário.

Por conta disso, a maior parte de tempo que eu gastei foi, por incrível que pareça, no modo sandbox. Mais uma vez o elegante design de Megaquarium revela-se ao criar um sandbox não-redundante, provendo desafios suficientes que não estejam ligados a estética do seu aquário, sem que você se sinta entediado.  A variedade de objetivos, de pequenos ajustes que você tem de fazer nos tanques, na decoração e em outras áreas do seu aquário te mantém engajado para olhar no final do dia e dizer “olha, até que meu aquário está legal e bonito”, fechar o jogo, fazer planos para o que incluir na próxima jogatina, pensar quais desafios serão dados para você ou quais problemas poderão surgir.

É disso que falo quando peço tanto para que desenvolvedoras de alto calibre — as tão estimadas “AAA” — olhem mais para jogos independentes. A minha última partida de Anno 1800, que decidi fazer para explorar Bright Harvest, colocou tanto objetivos sem explicá-los direito ou apenas para criar a ideia de que o jogo estava “ativo e sempre desafiador” que eu decidi largar no meio e voltar para Freshwater Frenzy. Estou conquistando ilhas, enfrentando bloqueios ou atuando em guerras? Não. Estou aqui cuidando dos meus peixinhos, garantindo que eles vivam bem e saudáveis e tendo um retorno financeiro com base nisso.

Freshwater Frenzy
Desafios são constantes dentro e fora do modo sandbox

No fundo Freshwater Frenzy é mais Megaquarium para quem gostou de Megaquarium? Disso eu não tenho dúvida. As alterações e adições não vão fazer alguém que acha “cuidar de aquários” uma ideia chata. Porém, reitero que é o tipo de DLC que devia ser mais presente na indústria; sem redundância para conteúdo antigo e com a inclusão de novos conteúdos que se interligam com o jogo base. Ele traz uma sutil mensagem sobre o ato de cuidar de aquários — os perigos que cruzamento entre espécies podem causar — e toda a minuciosidade do que é, no fim das contas, cuidar de uma vida.

Vou além e digo que este pode ser o jogo, fora de investidas voltadas para nichos ainda menores — como RimWorld e Dwarf Fortress — que melhor entende a necessidade de simular o comportamento de espécies e de como elas vivem em cativeiro. É o resultado de anos de refinamento de suas mecânicas via atualizações por uma desenvolvedora que entende bem o seu público e o que eles querem.

Seja pelo curto modo campanha, que tem lá seus desafios, ou por gastar horas no modo sandbox, Megaquarium: Freshwater Frenzy vai ter alguma coisa que vai te fazer sorrir. Ou, quem sabe, refletir um pouco sobre a cultura de espécies em cativeiro.

Megaquarium: Freshwater Frenzy

Total - 10

10

Excelente

Com Freshwater Frenzy, a Twice Circled dá um show em mostrar como incluir um DLC que não sobrecarrega o jogador de tarefas desnecessárias ou mecânicas que podem ser consideradas “redundantes”, traz reflexões sobre o que acontece quando diferentes espécies são colocadas em cativeiro, e se isso é algo ainda viável para o nosso futuro — seja lá o que for que nos aguarda de 2020 para frente.

Análise – Megaquarium: Freshwater Frenzy

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.