Análise – Megaquarium

Por mais que eu os ame de paixão, jogos de gerenciamento sempre sofreram de um terrível mal: a capacidade de criar um loop de “feedback” em relação às ações tomadas durante uma partida. Uma hora você está no vermelho e não sabe o motivo, ou você perde reputação enquanto tenta resolver um problema que sequer está ligado a esta mecânica. Megaquarium (Steam / GOG) é um dos pouquíssimos que não só compreende a necessidade de corrigir essa fraqueza, como muitas outras que jogos de gerenciamento dos últimos anos tem deixado de lado.

Antes de mais nada, vou colocar uma situação exemplo: Rollercoaster Tycoon — ainda um dos melhores “managers” em termos de gerar desafio tanto a curto como a longo prazo – nunca foi espetacularmente eficaz em explicar ao jogador qual é a necessidade de se ter, por exemplo, um local para bebidas próximo à entrada de um brinquedo para crianças, ou como distribuir banheiros pelo parque para que eles sejam bem utilizados. O lado funcional nem sempre é explanado e o que sobra é o aspecto estético para justificar a existência de muita coisa; você faz, eu faço, pois tanto na sua como na minha cabeça ele fica esteticamente bonito. E esteticamente bonito no mundo dos negócios é apenas umas das centenas de variáveis que determinam qual o posicionamento de um objeto no ponto de venda.

Os aquários que você vai administrar em Megaquarium são mais do que meros conglomerados de tanques para peixes, ou locais que servem ao único propósito de te trazer uma paz de espírito de caráter estético; você precisa de renda, de visitantes; e você precisa que esses visitantes não fiquem só olhando os peixinhos (e outros animais marinhos) nadando pra lá e pra cá, mas que também comprem bebidas das máquinas ou salgadinhos enquanto fazem isso. Eles precisam se sentir atraídos a realizar essa ação. Essa atração gera pontos de Fama; quanto mais pontos, mais rápido você passa de fase. Entretanto, se você for tapado como eu, não vai pegar isso de cara.

Acostumado a agir antes de pensar, montei meu primeiro aquário do modo campanha – o grosso de Megaquarium – como quem não quer nada. Peixe ali, acolá, via o dinheiro subir, mas não os meus pontos de fama. Precisava atingir 200 pontos de fama em um dia, mas a flutuação desses pontos era tão alta que nem em uma semana eu vi esses números. Fechava o dia em 100 pontos, às vezes 40, às vezes 60. O que eu fazia de errado? Decidi prestar maior atenção ao movimento dos meus visitantes.

“Eu já vi esse peixe”, apontava um deles, ou “que sem graça esse aquário”. Ora, não era à toa que eu não gerava pontos de fama; eu entupi metade dos aquários com quase a mesma espécie de peixe. Você precisa de variedade para manter o interesse dos visitantes e com isso conseguir Fama – e aí dá pra entender o efeito que isso tem na  construção e organização de um aquário.

Progressivamente Megaquarium te pede não só para ter uma grande variedade de peixes, mas também garantir que eles tenham um ambiente saudável para se alimentarem, que a qualidade e a temperatura da água estejam corretas. Depois disso, que os próprios aquários sejam mais atraentes ao público — com adereços e itens decorativos para atrair o olhar dos visitantes. Tal como os peixes, eles precisam ser variados e estrategicamente posicionados. Depois de ter um aquário bem decorado e repleto de peixes bem cuidados — levando em conta que você de fato leu os requerimentos de cada um deles e não pôs um que se alimenta de outros peixes no café da manhã, coisa que fiz — você agora precisa pensar em como dispor tudo para os visitantes. Não adianta ter um polvo, que gera quatro pontos ou mais de fama, se ele está no fundo do aquário. É necessário levar o visitante até lá.

Organizei e reorganizei meus estabelecimentos dezenas de vezes, coloquei máquinas de venda de alimentos e bebida em pontos importantes para que meus visitantes ficassem instigados em observar o polvo, depois coloquei palanques para que os meus funcionários dessem aulas sobre quais espécies estavam no aquário. Todo o processo de aprendizado e otimização é feito com tamanha naturalidade que  as fases — por mais longas que às vezes sejam — são um deleite, algo imensamente agradável de jogar e completar. Tudo isso por conta de um simples elemento: Fama.

O mais impressionante é como a inclusão de uma variável tão “simples” em teoria tem ramificações tão profundas, podendo até mesmo ser usada para por em prática conceitos mercadológicos. Não espero que você tenha tido aula ou lido livros sobre teorias de marketing para entender como que ocorre a construção de um estabelecimento e a disposição de ilhas e produtos como em um mercado, mas quem teve conhece a predisposição de muitos clientes em comprarem objetos que estão posicionados próximo ao caixa, ou como a prática de posicionar a parte de frios nos fundos vem não só de motivos relacionados a logística (facilidade de transporte e reposição de carnes), como da intenção de fazer o cliente navegar pelas ilhas do mercado e potencialmente comprar outro produto que não necessariamente era o que precisava. Megaquarium ilumina um pouco dessa imensa área de estudo.

Megaquarium

Vale também ressaltar, obviamente, o excepcional trabalho da Twice Circled com a inteligência artificial dos visitantes e dos funcionários. Em anos cobrindo jogos de gerenciamento (e estratégia no geral), essa foi uma das poucas vezes que senti que os pequenos humaninhos que andavam pela tela tinham alguma noção do que fazem e não estavam andando de um lado para o outro só para fazer a loja parecer cheia. Acompanhei um deles, e vi que — por exemplo — ele não costumava visitar os mesmos tanques duas vezes, mas em uma ocasião ele o fez por ter gostado tanto da decoração. Ou teria sido o banquinho que eu coloquei bem ao lado para ele descansar e desfrutar?

Megaquarium é repleto desses pequenos detalhes, seja na IA ou na própria decoração e atuação dos peixes. Às vezes os pegava comendo uma alga, ou fazendo alguma ação que era específica da sua espécie. A opção de uma câmera em primeira pessoa certamente ajuda a observar esses detalhes – funcionalidade essa que mais jogos de gerenciamento deveriam abraçar.

Um dos pouquíssimos aspectos em que Megaquarium peca feio acontece na interface; ao tentar ser o mais “minimalista” possível, a Twice Circled acaba por tornar certas tarefas um pouco mais trabalhosas do que o necessário. Por exemplo, falta uma ferramenta de filtragem de tipos de peixe por categorias ou características em comum, vender objetos requer o uso da ferramenta de desconstrução, e as janelas que podem ser movidas não são propriamente identificadas. Pequenos ajustes na interface e mais detalhes e animações no tutorial certamente ajudariam o jogador a não se sentir como um peixe fora d’água.

Eu amo managers, mas progressivamente senti que eles abraçavam tanto outros estilos – principalmente com a popularização de mecânicas oriundas de Dwarf Fortress ou derivados – que esqueceram o seu propósito inicial: às vezes só queremos relaxar e cuidar de algo para dizermos que é “nosso”, deixar com a nossa cara. Sem pressão, sem se estressar, mas ainda assim tendo um grau de desafio que nos mantenha atraídos. Os que não fizeram isso, acabam dependendo da nostalgia – como é o caso de Two Point Hospital – trazendo consigo as mesmas manias debaixo de uma nova roupagem.

A atual conjuntura desse gênero é que faz de Megaquarium um jogo tão importante. Finalmente um manager moderno entende a necessidade de equilibrar o ato de transformar o vazio em algo pessoal, de trazer desafio sem exacerbar ou te sobrecarregar informações, e ainda criar um loop de “feedback” constante para que você possa ser recompensado pelo seu trabalho. A elegância do design até permite um vislumbre do mundo do marketing. É um jogo que merece não só ser jogado, mas também estudado por qualquer aspirante a designer de games.

Megaquarium

Total
Megaquarium é um inteligentíssimo jogo de gerenciamento que compreende a necessidade de equilibrar aprendizado, desafio, liberdade para tomar decisões pessoais e criar momentos relaxantes. Te faz pensar estrategicamente não só em como expor seus peixes, como levar seus visitantes até eles. E o melhor, não depende de nostalgia para isto.
Excelente

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About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.