Análise – Hearts of Iron IV: La Résistance

Quanto você gosta da logística de Hearts of Iron IV? Você achou que a Paradox foi longe demais com Man The Guns e, como eu, demorou semanas para aprender as mecânicas? Caso a resposta tenha sido “sim”, lamento te informar, mas La Résistance (Steam) redobra esses esforços de uma maneira mais… furtiva.

Os principais componentes da nova expansão são o sistema de espionagem e as mudanças radicais nas mecânicas de movimentos de resistência em países ocupados. A meu ver, é o melhor que a Paradox já fez em Hearts of Iron; ele não cai no micro gerenciamento chato – apesar de que isso vai se tornar ainda mais presente durante as partidas – e também força você a repensar muitas de suas ações.

Hearts of Iron IV não chega, nem vai chegar a ser um jogo de estratégia com o detalhismo de títulos como Gary Grigsby’s War in the East / West no que diz respeito às limitações de um país dentro de um período de guerra. Você não tem que se preocupar, por exemplo, com a destruição de pontes ou ferrovias. Para contrabalançar isso, o sistema de espionagem de La Résistance se escora em um dos mais importantes pilares para o funcionamento de uma nação: fábricas civis.

Independentemente do tamanho do país, as fábricas são a base de sustentação; com elas você constrói fábricas militares, fortes, docas e tantos outros pormenores de Hearts of Iron IV. Quando a Paradox anunciou em 2019 que o sistema de espionagem ia usar as fábricas civis, eu torci muito o nariz para a ideia. Agora com algumas partidas feitas, eu gosto muito da ideia.

Hearts of Iron IV sempre teve uma grande dificuldade em não se tornar um “jogo de conquista mundial” como Europa Universalis IV. Tenha o mínimo de experiência e sorte, e você consegue invadir a Rússia e manter seu domínio na região sem muitos esforços. França então nem se fala. A resistência da população era mínima e outros países pouco se importavam em tentar colaborar com um levante popular.

La Résistance
Uso de fábricas civis é essencial para expandir a sua agência de espionagem, mas saiba o que priorizar para não pagar um preço muito caro no futuro.

Agora com o uso de uma agência de espionagem, você vai obter mais dados sobre o inimigo – que tipo de pesquisa realizam, qual o poderio naval e possíveis zonas de patrulha, etc. – mas o inimigo também vai poder ter esses dados e melhor se preparar para se defender. Isto varia de país para país, afinal se tem uma coisa que a Paradox ainda luta muito para acertar é a sua IA (mais sobre isso em breve).

Para entender melhor a complexidade do sistema, eu comecei a minha “tradicional” partida como a Alemanha nazista em 1936. Já nos primeiros meses construí a minha agência de espionagem e coloquei dois espiões – um na Inglaterra e Rússia – enquanto realizava os preparos para a invasão da França e Polônia. Como o péssimo jogador de Hearts of Iron IV que sou, o meu raciocínio foi o seguinte: “Ora, vou colocar meu foco na Rússia pois vou passar por cima da Polônia e da França sem problema algum”. Dito e feito, em menos de três meses Varsóvia estava tomada, a Polônia se rendeu e a França caiu nove meses depois. Mal sabia que esse era só o começo de uma série de dores de cabeça.

Enquanto meus espiões coletavam informações sobre a Inglaterra e Rússia e eu reservava fábricas civis para expandir a minha agência de tecnologia, não me dei conta do novo sistema de resistência adicionado na atualização 1.9.0.

A partir de La Résistance, Hearts of Iron IV agora usa dois tipos de sistemas de controle de províncias capturadas – uma ativa e uma passiva. A ativa significa ter guarnições posicionadas (para os mais íntimos, os famosos horseyboys), a passiva usa o mesmo modelo de guarnição das ativas, mas não requer intervenção direta do jogador. Isso em parte reduz o micro gerenciamento, mas aumenta o custo de manutenção pois você precisará de equipamentos para as tropas ativas e passivas (o número de equipamento varia de acordo com a lei de ocupação e atrito).

Por estar ocupado demais tentando infiltrar meus espiões no exército russo – outra ação que requer uma bela quantidade de equipamento – não estabeleci nenhuma operação de contra espionagem. Pisquei o olho e três províncias da Polônia estavam com mais de 45% de resistência à minha ocupação. Não sabia se o aumento foi resultado do descontentamento da população, de ações de outros países ou a IA que me pegou desprevenido. O que eu sabia é que eu estava ferrado. Só a supressão da resistência em Varsóvia requer mais de 2000 unidades de equipamento. Recrutar novas unidades de guarnição estava fora de cogitação – iam demorar demais e eu não tinha fábricas militares suficientes para produzir tanto equipamento em paralelo.

La Résistance
Operações especiais requerem diferentes tipos de investimentos, e às vezes o risco pode não valer a pena.

Por outro lado, se eu mudasse as políticas para algo como autonomia local, Varsóvia ia lentamente aceitar a minha presença. Quase cogitei fazer isso, pois me daria espaço para produzir equipamento e tropas, mas no fundo não ia ajudar muito. O atrito sofrido pelas guarnições ia durar ainda mais tempo e o ciclo continuaria.

No lado da França (que aliás é um dos focos da expansão), as coisas andavam tão ruins quanto, talvez piores. Múltiplas províncias tinham focos de resistência que variavam de 45 a 70%. As províncias com 70% tinham a velocidade das minhas tropas reduzida em 50%, os suprimentos locais diminuídos em 50% e o atrito aumentado em 30%. A essa altura eu já estava investido no avanço contra a Rússia, tinha um espião se preparando para realizar um levante na Noruega (o espião também precisava de equipamento), e tinha dedicado mais três fábricas civis para expandir a minha agência de espionagem.

Não tinha um plano de recuada; ou eu avançava com tudo contra a Rússia e lidava com os focos de resistência depois, ou deixava o exército vermelho crescer para cima de mim e tentava segurar as minhas fronteiras até uma possível estabilização em 1942 ou 1943. Levantei-me que nem um lunático e andei pela casa de um lado para o outro. “Mas e se eu fizer X e esquecer de Y? Será que posso pedir equipamentos para a Itália? Não, isso não seria possível, eles estão enfrentando duas frentes intensas na África e uma possível invasão em seu território”.  

Sentei, olhei para a situação em que me encontrava, e decidi: “Quer saber? Vou deixar assim mesmo e o problema vai sumir uma hora ou outra”. Pois bem, não sumiu. Os levantes na Polônia e França me forçaram a retirar unidades do fronte para combater grupos de resistência, perdi províncias importantes para a Rússia e vi minha manufatura diminuir semana após semana.

Quando cheguei em 1944, tinha uma economia desestabilizada, uma população que não apoiava mais a guerra, dificuldades em tomar território pois faltava equipamento, tropas, matéria-prima. Bem… Faltava tudo. A facada final foi a operação Overlord, que enxugou os meus esforços para a defesa total do pouco que restava da Alemanha. Até a minha derrota, como você imaginou, em 1945.

La Résistance
Novas mecânicas de controle de territórios ocupados é, sem dúvidas, uma das melhores adições de La Résistance.

Uma bola de neve que ocorreu porque eu, ao invés de prestar atenção na contraespionagem, tomei decisões precipitadas em 1936 e colhi os frutos podres dela em 1945. Não só isso, mas foi uma das partidas mais lentas que eu já fiz em Hearts of Iron IV. Velocidade 5 nem pensar, eram horas na velocidade 2 ou 3 calculando cada detalhe, movimento de tropas, planos navais e aéreos, construções e conversões de fábricas.

Posso estar na minoria, mas eu prefiro um Hearts of Iron mais lento do que a correria de antes. Move unidade para lá e para cá, bota na velocidade 5 e espera algo acontecer. Com os novos sistemas de espionagem e resistência local sempre tem algo acontecendo em algum lugar. Este algo, porém, nem sempre significa uma coisa boa.

La Résistance é uma expansão fantástica quando você joga com poderes majoritários (EUA, Inglaterra, Rússia, Alemanha)… até você olhar para o restante das mudanças dela, mais especificamente a tentativa da Paradox de aumentar a importância da Guerra Civil Espanhola e as mudanças nas Focus Trees de Portugal, Espanha e França.

Chamar de “zona” é pouco para descrever o que aconteceu nas minhas partidas com a atualização 1.9.0 e La Résistance. Mesmo com a opção da IA manter as decisões de foco históricas, vi a Guerra Civil Espanhola se desencadear em uma guerra gigantesca e ser anexada pela Alemanha, vi Portugal entrar no conflito e abocanhar um pedaço da Espanha e eu incrédulo com o quão pouco tinha a dizer sobre essas ações.

A Focus Tree da França foi pelo pior caminho possível. A França de Vichy te dá a oportunidade de se aliar aos alemães após várias concessões ou tentar fazer as pazes com a França Livre e se juntar aos aliados. Ambas as tarefas no momento dessa análise parecem impossíveis. A IA da Alemanha raramente colabora com você e, mesmo depois de inúmeras tentativas e reinícios de partidas, a França Livre me odiava cada vez mais. Fiquei a ver navios enquanto a guerra explodia no meu quintal.

La Résistance
Boa sorte tentando entender o que ocorre na Guerra Civil Espanhola, ou na península Ibérica no geral.

Já Portugal… bem… Eu tinha três parágrafos escritos sobre isso, mas decidi apagar pois eu estava repetindo os mesmos problemas da Guerra Civil Espanhola. É um país que “sobra” no mapa. Não é desafiador de se jogar, é entediante, e as mudanças na Focus Trees mais uma vez mais prejudicam do que colaboram. Evento de restaurar a monarquia junto ao Brasil? Soa interessante até notar que eu podia desencadear uma guerra no país pois a IA não seguiu os eventos históricos e, por algum motivo bizarro, os integralistas estavam no poder. Não sou louco de cruzar o oceano atlântico e tentar uma invasão naval, ainda mais com os equipamentos defasados de Portugal.

A sensação de jogar Portugal, Espanha e França em La Résistance é similar a re-jogar o DLC Death or Dishonor, mas ao invés de estar no centro do conflito e poder mudar o rumo da guerra, você está nas margens e espera que alguém jogue uma migalha para você poder fazer algo importante. Agências de espionagem nesses países? Nem sonhe, você não tem o luxo de reservar fábricas civis.

Nessas horas que eu questiono mais uma vez o modus operandi da Paradox. Por que ela não fez como a Triumph Studios e sua recente atualização para Age of Wonders: Planetfall? Ou então como a equipe de Imperator: Rome que ofereceu atualizações em fase beta e coletou o feedback da comunidade?

Pois, a meu ver, La Résistance tinha que ter – merecia ter – o mesmo impacto gigante que Man The Guns teve em reestruturar todo o conceito do que é Hearts of Iron IV. As partes que funcionam, funcionam muitíssimo bem. Elas me motivam a tentar novas estratégias com os Estados Unidos, com o Japão, até mesmo tentar seguir uma linha a-histórica com o Brasil. A outra metade está tão desorganizada que a única coisa que posso fazer é sentar esperado e torcer, de novo, que uma atualização venha e corrija os problemas. Pelo visto, a maior resistência da Paradox é em entender que ela precisa mudar o seu método de produção de DLCs e envolver mais a comunidade. Sonho com o dia em que isso irá de fato acontecer.

Hearts of Iron IV: La Résistance

Total - 7

7

La Résistance tinha todo o potencial para causar o mesmo impacto que Man The Guns causou em Hearts of Iron. Isto chega a ser atingido com os países mais importantes da Segunda Guerra Mundial, e é uma expansão que consegue desacelerar as partidas para propor questões importantes sobre a logística de uma nação. Todavia, o custo disso é uma reestruturação patética da península Ibérica junto com uma IA que ainda não consegue acompanhar as Focus Trees e uma França que está ainda mais enfraquecida e desinteressante de se jogar. Não era o preço que eu esperava pagar.

Análise – Hearts of Iron IV: La Résistance

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- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.