Análise – Hearts of Iron IV: Battle for the Bosporus

Tendo em vista a minha dualidade sobre o futuro de Hearts of Iron IV, jogar e escrever sobre Battle for the Bosporus  (Steam) foi um imenso desafio. O futuro do que atualmente pode ser considerada a “menor” franquia da desenvolvedora sueca pode ter sido determinado a partir deste DLC. Um futuro com o qual eu demorei para concordar, mas vejo que é o melhor para ela.

Desde o seu lançamento lá por meados de 2016 a Paradox enfrenta uma briga interna e externa sobre o futuro do Grand Strategy ambientado na Segunda Guerra. O curto período de tempo (1936-1945) não dá muito espaço para você expandir a gama de opções que um jogador pode ter sobre o final da guerra. Historicamente você verá a Alemanha nazista sucumbir nos três anos finais do conflito por diferentes fatores – sejam eles logísticos ou a pressão nos frontes ocidentais e orientais da Europa.

De um ponto de vista de um jogo “sandbox”, o céu é o limite. Você pode fazer com que o Brasil entre em guerra com os Estados Unidos, remover o nazismo da Alemanha, conquistar o mundo todo. Porém, as ferramentas de Hearts of Iron IV tendem a carecer neste aspecto, tornando o modo chato depois de muitas horas investidas.

Fico um tanto surpreso de ver que Battle for the Bosporus navega entre a linha do real e do imaginário com tamanha sutileza. Mas, o que é vendido como um “pacote de conteúdo” ao invés de uma expansão faz um trabalho muito melhor do que esperava. Por quê? Porque a Paradox decidiu se focar em uma área do confronto, mas dessa vez com sistemas que dão sustentabilidade para que não fique destoante do resto de Hearts of Iron IV.

Battle for the Bosporus
As novas Focus Trees para a Grécia, Turquia e Bulgária são gigantescas.

O domínio geopolítico sob o estreito de Bósforo é uma questão que até hoje é debatida no panorama global. Apesar de ter uma menor significância durante a Segunda Guerra Mundial, os países focados pelo DLC – Bulgária, Grécia e Turquia – sofreram algum impacto na guerra. Entretanto, Hearts of Iron IV não era capaz de demonstrar isso até o sistema de decisões ser expandido com a Guerra Civil Espanhola em La Résistance.

A diferença entre a Guerra Civil Espanhola e o que é obtido com Battle for the Bosporus está mais ligado à linha do tempo dos acontecimentos do que uma invenção mágica da Paradox. Destrinchar os acontecimentos da Espanha em um jogo com o escopo de Hearts of Iron IV é uma tarefa ingrata e quase impossível. Eventos que deveriam ser impactantes são jogados para debaixo do pano para que o jogador ainda consiga estar focado no panorama geral. Um efeito com que jogos como Crusader Kings 3, Europa Universalis e até Imperator conseguem lidar, dado a sua linha do tempo estendida.

Battle for the Bosporus, por outro lado, mantém a tensão de gerenciar um país que está em quase completa ruptura do início ao fim. Escolher jogar com Grécia, Turquia ou Bulgária é saber que você vai estar com material defasado, suas frentes limitadas e grandes potências sedentas para tomar as suas áreas.

Estou cansado de recriar pela milésima vez a operação Bagration ou Barbarossa — inúmeros jogos já fazem isso e, apesar de eu crer que a União Soviética precisa ser revitalizada em termos de conteúdo, é o último país que eu opto para jogar em Hearts of Iron IV.

Battle for the Bosporus
Começar uma partida com a Grécia é aceitar ter que lidar com modificadores negativos pelo resto da campanha.

Afinal de contas, compreender história é também estar ciente de que muitos acontecimentos impactantes vão ser apagados em favor de uma “narrativa global”. Reitero, é óbvio, que não usem um jogo para isto mas busquem livros e outras fontes de referência. Dito isso, Battle for the Bosporus consegue, na medida do que é possível dentro dos confins do que é Hearts of Iron IV, estabelecer uma boa narrativa. Esse foi um dos pontos principais que me fez apreciar tanto o DLC.

A minha partida mais significativa foi com a Grécia; impactada de seus problemas internos e praticamente sem soldados, eu tinha de tomar decisões rápidas para guiar o país. Não para algum futuro próspero, mas para algum futuro que não fosse ser engolido pelos grandes poderes.

Neste ponto que o novo sistemas de decisões de La Résistance entra a todo vapor. A Grécia está separada em monarquistas, comunistas e fascistas. A partir do momento em que você começa a usar a Focus Trees para reconstruir o então falido país, você começa a determinar a rota que ele vai levar nos anos seguintes.

Jogadores de Hearts of Iron IV como eu e você sabem muito bem que isso é o padrão do jogo. O que não é o padrão é a quantidade de micro eventos que surgem na medida que você começa a atentar para essas situações. O país está em uma severa dívida e você precisa gastar pontos políticos para pagá-los. Ao mesmo tempo, o retorno da monarquia ocorrido pouco antes da Segunda Guerra transformou o país em um caldeirão borbulhante.

Decisões mais bem produzidas e a forma como elas impactam o restante da partida são o que dão o tempero especial para Battle for the Bosporus.

Antes de eu sequer começar a partida já tinha inúmeras questões na cabeça: Como eu vou remover a monarquia sem causar uma guerra civil? Como eu vou tirar todos os modificadores negativos da Grécia antes de 1939? Como eu vou manter uma linha de produção em uma região que está subdesenvolvida em termos de logística para uma futura guerra? A resposta é simples: é impossível fazer tudo isso ao mesmo tempo.

Eu me foquei de início em colocar o Rei sob prisão e torcer para que as eleições de 1936 ocorressem de maneira tranquila (um dos momentos cruciais durante uma partida com a Grécia). O partido republicano foi o vencedor; não era a minha escolha principal mas melhor do que nada.

A instabilidade política me perseguiu ao longo da partida inteira. As coisas esquentaram ainda mais quando eu comecei a pisar forte para eliminar qualquer resquício de fascismo. As facções internas ameaçavam uma guerra civil enquanto a Bulgária — agora anexada pela União Soviética, o que não aconteceu na vida real — ameaçava entrar na minha região para unificar suas linhas de frente e partir para o ataque ao estreito de Bósforo.

Jogar Hearts of Iron IV sempre foi uma questão e equilibrar pratos. As nações de Battle for the Bosporus são como entender bem de malabarismo e priorizar qual prato primeiro para que todos — incluindo você — não se estatelem no chão. Eu me estatelei, feio.

E por falar na Turquia, ela não fica nem um pouco atrás no quesito imersão.

Estava tão focado em gastar pontos políticos para diminuir a instabilidade das facções que nem em 1941 eu tinha uma estrutura industrial competente. As poucas fábricas construídas entre 1936 e 1941 usavam a capacidade máxima delas para suprir as tropas, mas não me davam flexibilidade para editar meu exército. O que me salvou de muitas investidas foi a minha armada naval — que aliás continua tão complexa quanto no lançamento de Man the Guns.

Infelizmente ela não foi o suficiente para ver os países da minha região serem pisoteados e comprimidos até que cedo ou tarde a minha região fizesse parte do conflito, e eu pagasse o preço pelas decisões que tomei no início da partida. A Grécia foi tomada no final de 1942 pela União Soviética e minha partida tinha terminado.

Eu poderia ter muito bem me focado na Turquia, deixado Hearts of Iron IV seguir linhas históricas para escrever a minha crítica sobre Battle For The Bosporus. Não o fiz justamente para demonstrar o microcosmo de eventos que a Paradox é capaz de construir com o novo sistema de decisões. Battle for the Bosporus me engajou muito mais com os problemas presentes no meu país do que ficar brincando de logística.

Quem dera a Paradox tivesse essas mecânicas quando lançou Death or Dishonor, quando expandiu as decisões de outras regiões em Waking the Tiger. Mas este é um problema que se espalha em todos os jogos da desenvolvedora: inconsistência.

E, acima de tudo, prepare-se para lidar com o inconveniente de ter equipamentos defasados.

Pois eu sei que, apesar de adorar o que foi feito com Battle for the Bosporus, Hearts of Iron IV ainda sofre de uma IA horrível (novos projetos para melhoria de IA estão em desenvolvimento, a começar por Stellaris), e uma experiência que vai variar de acordo com a nação que você jogar.

Haverá um dia em que Hearts of Iron IV pode ser apreciado por completo? Olha, depois de quatro anos desde o lançamento, eu não consigo acreditar que isso seja atingido sem uma bela ajuda de mods. Todavia, a Paradox entrar de cabeça mais nesse lado sandbox e criar essas micro narrativas é um conceito muito mais interessante para o futuro do Grand Strategy.

Ainda haverão DLCs que vão inserir novas mecânicas para aqueles que demandam tanto isso. Não vou dizer que não sou um deles; acredito que há espaço para Hearts of Iron IV crescer, uma delas sendo um sistema mais robusto de infantaria — a única área que não foi tão refeita quanto o sistema aéreo e naval. Mas acho muito mais relevante trazer pequenos contos da história do que, como disse antes, recriar cenas “gloriosas” da Segunda Guerra.

Mesmo com todas essas inconsistências de que eu e você estamos cientes em Hearts of Iron IV eu digo: vai em frente com Battle for the Bosporus. Um pacote de conteúdo que bate de frente com muita expansão grande. Que o futuro seja pavimentado por mais contos e não um sistema mal implementado de espionagem como o de La Résistance.

Hearts of Iron IV: Battle for the Bosporus

Total - 9

9

Battle for the Bosporus não vem com o objetivo de reinventar mecânicas ou trazer sistemas complexos como Man The Guns. Ele ainda é preso à base inconsistente de Hearts of Iron IV, mas faz dela o que poucos pacotes de conteúdo da Paradox são capazes: criar micro narrativas em um jogo cujo foco não é este. Se este é o futuro de Hearts of Iron IV, eu o aceito e fico contente com ele.

Análise – Hearts of Iron IV: Battle for the Bosporus

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.