Primeiras Impressões – HellSign

De todas as “tendências” adotadas pela televisão nos últimos 20 anos, os Reality Shows são os que mais me tiram do sério. Eles abusam da boa vontade e do emocional do espectador para que ele se sinta conectado com o show de dramalhões, corte abruptos e situações exageradas. Mas se tem um deles que é o meu ponto fraco, são esses ridículos de caçar fantasmas. Ok, fantasmas podem não existir, mas carregam consigo um peso tão forte não só cultural, como simbólico na história humana, que eu sempre fico com aquela pulga atrás da orelha. E se existissem? E se realmente houvesse alguém que fosse capaz de encontrar tais aparições? Foi essa chamada que me fisgou por HellSign da Ballistic Interactive, disponível no Steam Early Access.

Como nas séries sobre o sobrenatural e nos reality shows que vergonhosamente assisto, HellSign é sobre compreender o incompreensível. Você é um “scout”, um profissional responsável por entrar em casas mal-assombradas, identificar qual ser maligno habita nelas e, se possível, despachá-lo para outra dimensão. Para fazer esse trabalho você vai precisar de uma boa dose de dedução, paciência e leitura.

Pode tirar da cabeça a ideia de um “detective vision” ou o equivalente de jogos AAA, em HellSign o negócio é “na marra”. Você precisa ir de cômodo em cômodo equipado com antenas capazes de detectarem sinais oscilantes, rádios e até luz negra para identificar pistas. Essa é, de longe, a minha parte favorita do jogo na atual versão de acesso antecipado. Eu amo adventures point ‘n click, vide a minha paixão por Unavowed, e o aspecto investigativo de HellSign me lembra bastante do gênero.

A primeira casa que fui contratado para investigar tinha algum poltergeist capaz de arremessar objetos e fazer “brincadeiras” de mal gosto — me dando uns sustos — ao mexer com a energia elétrica. O problema é que esse comportamento é similar ao de tantos outros seres do game. Era hora de reunir mais pistas, onde notei que o sistema ainda mais robusto do que eu imaginava. Você segue um rastro de migalhas, você precisa entender quando um acontecimento aconteceu, onde ele aconteceu e de que forma aconteceu.

HellSign

A pista chave para a minha investigação foi notar que um dos corpos estirados na sala deixou um rastro de sangue que batia com o ferimento causado por um objeto pesado. Peguei essa informação, abri um diário que lista todas as aparições do game e, com um marca-texto virtual, comecei a destacar passagens que coincidiam com a atitude de um estranho cavalo-esqueleto que matava suas vítimas de forma assustadoramente bruta.

Desvendado o mistério, hora de realizar o ritual de invocação e despachar de vez esse monstro para outra dimensão! Foi aí que ele surgiu, me matou em um golpe e minha investigação foi por água abaixo.

Um ponto que a Ballistic Entertainment esqueceu de alertar no tutorial de HellSign é que ele é difícil, muito difícil. A calma que você precisa ter para resolver uma investigação é a mesma que você vai necessitar para avançar na história. Você vai estar em uma imensa desvantagem, independentemente da classe que começar (cada uma com a sua árvore de habilidades passivas e especialidades em despachar entidades).

Como um arqueologista, eu tinha maior capacidade de dedução, mas minha defesa era patética, eu tinha um mísero revólver com capacidade para seis balas e um casaco. Um casaco, caro leitor, para lutar contra fantasmas, cavalos-esqueleto. Ora, isso é coisa que se veste para ficar quente em uma noite chuvosa, não para esse tipo de trabalho.

HellSign

Agora ciente da minha situação desvantajosa, decidi que o melhor rumo seria pegar coletar o máximo de pistas possível em uma casa, ir embora e vendê-las no mercado negro. Que se dane o ser que assombra a casa, eu preciso é de munição, armas e proteção balística.

Entrei na minha segunda missão com esse objetivo na cabeça, ela corria muito bem até que ouvi um barulho do outro comodo. “Ah, mas você veio cedo demais”, pensei achando que era tal da entidade. Que nada, era uma lacraia. Uma lacraia gigante. Eu não sei se você já viu uma lacraia na vida real, mas se você me falar que na realidade aquilo é um alienígena que veio para a Terra em um meteoro, eu concordaria em você. Tenho pavor desse bicho, mas ao menos era um game, eu tinha um revólver e uns disparos seriam suficientes para matá-la.

Na maior ironia do destino, foi ela que me matou.

Como isso aconteceu? HellSign está em acesso antecipado, e um dos principais — para não dizer problema primordial — dele está no combate. Jogos com visão isométrica unidos de inimigos com uma movimentação errática e armas de longo alcance já são difíceis de serem desenvolvidos por si só. Não é a toa que Action RPGs tendem a manter o inimigo sempre na mesma altura do jogador e, quando não, garantem que o dano causado pela arma seja registrado mesmo que exista uma discrepância de alguns centímetros — coisa que não acontece em HellSign.

HellSign

Mirar, esquivar e disparar em um inimigo é irritante. Lutei contra lacraias, aranhas gigantes, aranhas pequenas, outros bichos peçonhentos e eu quase sempre perdi. Ele não te dá uma ferramenta, como uma mira laser, para você mensurar a distância. Os inimigos já se movem de forma errática demais e a única certeza que você tem de que vai de fato acertar é se a mira do mouse estiver exatamente em cima do inimigo no momento certo. Imagine fazer isso com um grupo de seis aranhas que saíram debaixo da cama, de armários, de tudo quanto é lugar, em um local escuro e ainda com pouca munição. Vejo como uma dificuldade artificial demais e um imenso atraso no que poderia ser um jogo muito mais fluído.

A própria Ballistic Interactive está ciente disso, e promete melhorar as animações, tempo de esquiva, e refinar o combate. Novamente, já é algo que eu esperava de um jogo em acesso antecipado. Até mesmo um dos meus jogos favoritos dos últimos anos, Brigador, passou pela mesma dificuldade durante e após o desenvolvimento.

Foi nessa promessa que eu continuei a trilhar meu caminho, tentar não me irritar tanto ao matar lacraias, que depois desapareceram em favor de Ghouls, e erradicar entidades. As 12 horas prometidas do primeiro capítulo viraram quase 25. E eu não me arrependo nem um pouco de ter gastado todo esse tempo (além do que, eu estou super afiado em desviar de aranhas).

Pois, em mais de cinco anos, não vi um jogo que te deixa encarregado de uma investigação de uma maneira livre como HellSign. É levemente desconcertante como o fantástico Darkwood, pelo visto tem material suficiente para muitos mais capítulos, e brincar de caçar fantasmas e aparições foi muito engajante. Só não recomendo prestar muita atenção na história, pois a escrita é dolorosa de ler.

Se você tem interesse em aparições, em buscar respostas por si mesmo e está disposto a aguentar um combate que no momento é mediano, vai fundo. Se não, espere, mas tem cara que vem coisa muito boa por aí.

Primeiras Impressões – HellSign

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.