Primeiras impressões – HELLION

Lá vem mais um jogo de survival no Steam Early Access. Sim, eu sei, é ambientado no espaço, as imagens não parecem que Hellion traz nada de novo e não tem futuro. Acredite, o game em desenvolvimento pela Zero Gravity e disponível por R$45,99 tem muito mais a oferecer do que imagina.

Primariamente é um jogo onde você sim, tem de sobreviver no espaço pela coleta de recursos. Porém, os recursos em si são apenas uma pequena parcela do que compõe Hellion ao invés do típico “você precisa de recursos para absolutamente tudo”. Não existe um intricado sistema de construção de naves, tampouco é preciso se desesperar por que não achou minério X ou Y e agora está com fome. Aliás, alimentos nem mesmo estão presentes no momento. A base é saber navegar no espaço.

O que o principalmente distancia-o de outros jogos de survival é o — até então — ótimo uso de informação contextual no cenário. Mesmo os meus games favoritos do gênero são infelizmente um emaranhado de menus que constantemente te tiram da experiência. Quer criar um item? Abra um menu, depois vá para outro e depois outro. Tarefas simples viram maçantes à toa. Hellion combate isto ao implementar os menus diretamente na nave ou estações espaciais que acessar.

O uso de tal técnica é uma faca de dois gumes dado a natureza do jogo, pois cria-se uma necessidade de andar mais do que o necessário para verificar se todos os sistemas estão operacionais, o que é um tanto estranho não existir um computador central ao menos para verificações. Pouparia um pouco de trabalho e não quebraria o senso de imersão.

Hellion torna-se atraente pela maneira mais realista de tudo que é feito. Você pode escolher três maneiras de começar uma partida: Em uma estação com equipamento completo, em uma nave ou em apenas um módulo. Optei pelo segundo.

Ele usa física newtoniana para aplicar as forças no espaço. “Qualquer corpo permanece no estado de repouso ou de movimento retilíneo uniforme se a resultante das forças que atuam sobre esse corpo for nula”, o que se traduz em: ou aprende a manejar com delicadeza seus equipamentos ou você vai vagar pelo espaço e morrer.

Como qualquer começo, as coisas demoram para andar e a falta de um tutorial conciso significa bater de cara em paredes imaginárias a cada curva do percurso. Parte do meu sistema de oxigenação não estava funcional, precisava de duas placas de filtragem de dióxido de carbono e não tinha absolutamente a menor ideia onde eu ia encontra-las. Felizmente, estavam em uma das caixas na área de armazenamento.

Com elas em mão, acessei o painel de manutenção do sistema e troquei as então inoperáveis placas pelas novas. Voltei ao sistema e tentei reiniciá-lo, nada. Aparentemente os meus painéis solares também estavam desativados por falta de um componente, aí que as coisas começaram a ficar interessantes.

Hellion tenta simular a necessidade de manutenção da nave aos minúsculos detalhes, não tinha como realizar reparos nos painéis a não ser que vestisse uma roupa espacial e fosse na parte externa. Para quebrar o estigma de fazer tarefas desnecessárias, a Zero Gravity “impõe” um sistema que dá fisicalidade a uma mecânica que, em outros casos, é considerada simples.

Arrastar um item para um slot, que seria o caso de outros jogos, já resolveria o problema do painel, mas não, os desenvolvedores querem que você sinta na pele a ideia de ter de realizar a manutenção. Peguei a bateria adicional, esperei a despressurização da câmara de acesso e liguei o jetpack para me dirigir até ao quadro de bateria.

Hellion

Ao chegar lá removi a primeira bateria e peguei a segunda, mas esqueci de um pequeno detalhe, ao aplicar força o objeto vai seguir uma trajetória retilínea uniforme. Um pequeno aperto no botão errado e lá se foi a bateria a vagar pelo espaço.  Com receio de ter o mesmo destino dela, voltei para a nave e carreguei o que conseguia da bateria anterior para tentar ao menos ativar o motor.

Segunda barreira, minha posição relativa à estrela daquele sistema solar não era a recomendada. Com o pouco de bateria que tinha, rotacionei lentamente a nave para que os painéis solares fossem ativados. Missão cumprida, um respiro de alívio e agora era descobrir qual era o próximo passo, a obtenção de módulos.

Os módulos não são visíveis a olho nu, sendo preciso usar o computador da nave para triangular a posição deles nos planetas próximos. Agora com bateria carregada, motores funcionais, poderia então iniciar a construção da minha base. Cada módulo deve ser conectado por mecanismos de acoplagem que fazem até os veteranos em Kerbal Space Program enlouquecerem. Uma variação de 10cm é o suficiente para não acoplar. Tentativa e erro (e explosões) foram o que marcaram as mais de três horas até pegar o jeito e ter uma base razoavelmente bem mantida.

Por ter jogado boa parte em um servidor vazio, já que no momento não há muita gente em Hellion, eu não pude experienciar as situações de combate, apesar de ter sem querer disparado dentro e criado um buraco grande o suficiente para sugar o oxigênio da nave e me sufocar. Sério, não tentem isto.

Grande parte do meu fascínio pelos detalhes providos em Hellion vem da minha experiência com simuladores de vôo e a forma que eles te colocam em uma situação realista. Tenho pilhas de papeis com rotas, anotações e checklists dos mais diferentes modelos de aviões. Portanto, o que soa como tedioso para muitos, me deixa vidrado por horas.

A grande questão que Hellion tem a enfrentar no momento é encontrar um propósito para esses sistemas. Foi criado a sensação de prazer pela interação, mas a interação em si não retém um contexto. Após atingir uma parte do conteúdo você acaba sem ter o que fazer. Sua base está lá, pode ser acessada e gerenciada, mas ele não sabe te responder o porquê de fazer isso.

Não é o primeiro, nem o último título em Early Access a lutar com esta questão, porém a falta de um objetivo a longo prazo me afugenta um pouco. Claro que novos conteúdos virão no futuro e o roadmap da desenvolvedora já deixa claro as novidades. Mas ainda mantenho a questão, devo eu combater outros jogadores? Os recursos se tornarão escassos? Qual é o grau de personalização da minha nave?

Ficar em silêncio quando tento responder essas questões é o que me incomoda. No momento Hellion parece ter parte do seu desenvolvimento feito em um vácuo, onde apenas a interação com o cenário se sobressai. Resta construir o restante da ponte que liga o interesse do jogador com outros elementos que estabeleçam a base da jogabilidade. No momento um maravilhoso simulador de mecânico espacial, mas apenas isto.

Primeiras impressões – HELLION

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.