Primeiras Impressões – Black Skylands

A primeira vez que eu ouvi falar sobre Black Skylands foi em uma comparação com Stardew Valley. Como estava sozinho não precisei esconder a leve decepção. Eu nunca me conectei com Stardew Valley e similares — acho as mecânicas um pouco entediantes demais para o meu gosto. Por sorte, Black Skylands (Steam / GOG) não é nada como Stardew Valley. Na realidade, a única semelhança entre os dois está na possibilidade de se ter uma pequena fazenda.

Por anos eu sonhei com um jogo onde eu pudesse controlar uma airship, personalizá-la, navegar por ilhas voadoras e levar o meu tempo para explorar os seus segredos e completar quests. Até então Black Skylands foi o mais próximo que eu obtive.

Em desenvolvimento pela Hungry Crouch Games, Black Skylands está mais próximo de uma versão mais acessível de Sunless Skies. Claro, não há todo o incrível trabalho da Failbetter Games em criar uma ambientação já muito bem estabelecida como Fallen London, mas no que carece de narrativa Black Skylands mais do que compensa no lado de personalização. 

A história em si, ao menos no que diz respeito a versão de acesso antecipado, é direta e até um pouco previsível; você herda a responsabilidade do seu pai de cuidar de uma cidade, reconstruí-la e torná-la o seu “ambiente pessoal”. Creio que é daí que vêm as comparações com Stardew Valley, mas como disse, Black Skylands é muito mais que isso.

Sabe aquele jogo que te dá vontade de explorar cada canto do mapa, mas não se prende aos tradicionais estilos de jogos “open world” com dezenas de waypoints fora os necessários? E também não pede que você se esforce na imaginação (não que isso seja um problema, mas há dias em que você não quer forçar muito o cérebro)? Pois então, essa é a proposta de Black Skylands.

Black Skylands
Escolha o destino que quiser, faça a sua própria jornada, essa é a “pegada” de Black Skylands

Se pudesse reduzi-lo em uma única sentença, seria: “Faça dos céus o que você quiser”. Nas primeiras horas eu decidi seguir a narrativa que atua como um semi-tutorial para os conceitos básicos do jogo – como alterar a sua airship, modificar suas armas, usar diferentes habilidades de combate contra inimigos, seja no ar ou em terra, e por aí vai. Depois disso eu estava livre para fazer o que bem desejar. Digo, quase livre.

Uma das mecânicas mais atraentes de Black Skylands é um sistema de “conquista territorial”, ou melhor, libertação territorial. Tanto a sua cidade quanto outras áreas do mapa estão sob o domínio dos Kain’s Falcons. São o estereótipo de “somos vilões mas protegemos sua vila então fingimos que somos bonzinhos”. 

Você começa a campanha apenas com a sua cidade liberada e, caso escolha, pode dar os passos iniciais para libertar outras cidades ou vilarejos. Dentro disso entra um sistema de risco / recompensa que vai te “perseguir” de uma maneira positiva ao longo de todo o jogo.

Em suma, toda região liberada tem a chance de ser recapturada pelos Kain’s Falcons. Há múltiplas variantes em jogo para que isso aconteça: o tamanho da cidade, quais tipos de materiais ela oferece, a posição dela no mapa e outros nuances que são meio “escondidos”. De qualquer forma, cedo ou tarde você vai receber uma notificação que uma de suas cidades está sob ataque e vai partir de você salvá-los ou não. 

Não importa o clima ou o objetivo, navegar em Black Skylands é sempre prazeroso

Neste ponto eu não creio que a Hungry Crouch Games já tenha chegado a um equilíbrio; em algumas partidas eu lutei constantemente para defender meus vilarejos enquanto em outras parecia que os Kain’s Falcons tinham desistido. Enfim, os “males” de um jogo em acesso antecipado, mas que uma hora se ajeitam, e dado a velocidade que a Hungry Crouch trabalha – me fazendo atualizar as primeiras impressões pelo menos cinco vezes antes mesmo de colocá-la no ar — diria que as chances de isso ter se resolvido quando você jogar são altas.

De qualquer forma, como vocês sabem (ainda mais se leram a minha crítica de Biomutant), eu adoro sistemas como o apresentado por Black Skylands e ainda mais com a boa dose de aventura que ele proporciona. 

Eu quero que você tenha essa palavra na cabeça, aventura. Ainda que às vezes usada a esmo, são pouquíssimos os jogos onde eu sinto que realmente vivo ou vivi uma aventura. Posso citar nomes grandes como as imensas áreas de Skyrim e Xenoblade Chronicles, o experimentalismo de Breath of the Wild ou Stalker e o intricado porém fantástico Caves of Qud.

A proposta desses jogos pode variar, mas todos eles trouxeram um senso de aventura para mim. Todas as dungeons de Skyrim foram memoráveis? De forma alguma, assim como eu não tive paciência para completar todas as Shrines em Breath of the Wild (lamento a todos mas eu comecei o jogo no WiiU e nunca tive tempo para completá-lo no Switch), mas quando eu olho para eles com uma lente macro, eu só posso dizer “Uau, foi uma aventura e tanto”

Black Skylands
Combates aéreos podem se tornar um tanto quanto intensos

Esse é o senso de aventura que Black Skylands trouxe para a minha vida. Acordar um dia e escolher navegar por uma nova área do mapa, esbarrar com um tesouro, às vezes uma anotação engraçada – como uma disputa entre cientistas e historiadores sobre nomenclaturas – obter novas peças para a minha airship ou simplesmente ir para onde o “vento” me levar. Vão ser todas as áreas memoráveis? Duvido muito, mas isso não impede de que o senso de aventura esteja presente. 

Para completar a sensação, ele é um jogo um tanto tátil quanto à interação com o ambiente e vice-versa. Sua nave pode – e vai – ser danificada durante o combate, e você não precisa se preocupar se foram as velas ou os canhões, mas vai ter que soltar o leme e consertar. Encher o tanque de combustível não é só um botão, mas sim carregar barris e fazer manualmente. Há um incrível equilíbrio entre não pedir muito do jogador mas também não fazer com que ele se sinta um “robô” com a quantidade de ações mecânicas.

Para comparação, é o contrário do que eu senti quando joguei o shooter espacial Everspace 2, que é tão focado em te levar para o próximo objetivo, o próximo waypoint ou missão secundária, que sequer te dá a sensação de você estar no espaço. Black Skylands vem carregadíssimo de um estilo visual que faz você sentir como se estivesse nas nuvens; seja nos sons gerados pelo motor da sua airship até o passar das horas – quando a luz da sua airship liga junto com as lamparinas das cidade e as nuvens abaixo de você ficam até um pouco ameaçadoras. 

Toda essa ambientação e senso de aventura, é claro, se estende muito bem para o combate – que talvez seja um dos pontos mais bem refinados do jogo na publicação dessa matéria. Mais uma vez a Hungry Crounch vem com a ideia de “complete o objetivo como você quiser”. Quer usar canhões para eliminar as naves inimigas? Fique à vontade. Ou quem sabe você prefere usar seu gancho, ir até a nave inimiga, jogar um dinamite e pular de volta para a sua airship. Até a conquista e reconquista de certas ilhas pode ser feita de diferentes maneiras, e eu tentei me certificar de testar todas.

Você pode levar um tempo até se ajustar ao combate fora de sua airship, mas as diferentes possibilidades de solucionar uma missão valem o custo.

O único “porém” do combate vai ser o tempo que alguns poderão ter para se adaptar aos controles, ainda mais pelo jogo ser top down e algumas ações não serem tão naturais assim. Eu diria que é coisa de 5 a 30 minutos dependendo da pessoa, mas nada complexo demais, e em pouco tempo você estará usando o seu gancho para puxar inimigos, dar um soco na cara deles e instantes depois pegar sua espingarda e eliminar o restante.

Eu não vou nem entrar no grau de personalização das armas – onde você pode trocar todos os componentes – ou este texto acabará com 3000 ou mais palavras, mas fique ciente de que se você pegou uma arma nova, ela estará um tanto diferente depois de 10 ou mais horas de jogo devido à quantidade de modificações que você encontra nas ilhas ou missões.

Como todo jogo em acesso antecipado, eu deixo aqui sempre os meus típicos alertas. Black Skylands ainda tem uma boa dose de bugs, sendo a maioria deles visuais, e ele só apresenta metade do conteúdo planejado da versão final prevista para 2022 – o que a meu ver já é coisa para caramba e muito acima do que se vê em jogos em acesso antecipado. A desenvolvedora tem tentado evitar que as atualizações invalidem os jogos salvos, mas como disse, os “males” de um jogo em acesso antecipado são esses.

Agora, se você não se importa muito com isso, se quer um jogo que te traga um ar de leveza mas também intensidade e um espírito de aventura, ou só quer estar no comando de uma airship, Black Skylands é uma grandíssima recomendação minha. Não consigo imaginar o que sairá daí daqui a um ano, mas tenho bastante esperança que seja algo melhor ainda do que eu tenho jogado. 

Primeiras Impressões – Black Skylands

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.