Os metódicos 60 segundos de Minit

“Ok, o que eu faço com esse regador? Ai meu deus, eu tenho só 30 segundos. Não, agora eu só tenho 10….morri”. Eu  tendo a ser contra timers em jogos. Odeio pressão, odeio a necessidade de fazer algo no menor tempo possível. Em Minit (Steam, PlayStation 4) eu não só os tolero, é essa pressão que me faz amar o jogo criado por Kitty Calis, Jan Willem Nijman, Jukio Kallio e Dominik Johann.

Adventures tendem a ser sobre exploração, tomar o seu tempo e encontrar segredos no seu ritmo. Minit a princípio parece promover justamente o contrário. Uma espada amaldiçoada faz com que o protagonista viva por apenas 60 segundos. Um minuto para resolver uma quest, para obter um item, para falar com pessoas ou para decifrar um quebra-cabeça.

É estressante, confesso, mas ao mesmo tempo ele instiga o meu estilo metódico e planejador — um que menciono em artigos como o de Spintires e o que me deu forças para sobreviver ao inferno gélido de The Long Dark. Tudo precisa ser cuidadosamente planejado para aproveitar ao máximo do seu tempo. Quer chegar a um objetivo a tempo? Descubra a melhor rota até lá. Não rola de perder tempo com “besteiras”.

Aliás, creio que eu não deveria caracterizar nada como “besteira” em Minit. Nada é irrelevante no seu design ultra focado. Se está no mundo, tem alguma serventia.

Vide o regador que mencionei no início do artigo, ele me serviu para regar uma planta que me garantiu mais um coração de vida. Foi simples de descobrir? Não, foi na base da tentativa e erro. Fui de área em área do mapa regando coisas (até caranguejos, vai que né?) até encontrar uma plantação e ter um retorno positivo de uma das minhas ações — no caso o ato de regar um broto até ele crescer e dar fruto a um coração. Depois o usei para resolver o quebra-cabeça de um templo. Para isso tive de garantir que eu primeiro pegasse a espada para abrir caminho até o local, voltasse, pegasse o regador e aí sim completasse o objetivo. Planejamento, senhoras e senhores.

Difícil não se apaixonar quando um evento desses, ou tantos outros que não prefiro evitar mencionar para não estragar a surpresa, ocorre em Minit. Tão pouco tempo que, mesmo assim, diz tanta coisa.

É por isso que Minit não promove a inibição do ato de explorar, mas sim transforma ele um gigantesco bolo com pedaços facilmente mastigáveis. Cada um tão delicioso quanto o anterior.

E tal como a importância de itens e do timer, o uso do (carismático) estilo lo-fi sustenta a noção de “comprimir o máximo de informação em uma área” e a fragmentação das tarefas sem que elas percam o sentido ou desmotivem. Elementos de suma importância sempre estão realçados na tela — seja via uma organização peculiar de pedras, situados no canto do mapa ou claramente definidos pelo seu formato. E ainda assim, exala um carisma fantástico. Como não dar risada do peixinho que está fora do mar e se apresenta com: “ficar na terra é ótimo?”

Enquanto que houveram momentos que eu gostaria que o timer não estivesse lá — como em puzzles que tive de refazer quando o tempo se esgotou — são pouquíssimos os jogos onde eu consigo ver uma boa justificativa para uso de tal mecânica como em Minit. Morrer não é o fim de tudo, como em um roguelike, nem um significado de que você falhou — que é uma resposta natural e um dos problemas corriqueiros com muitas implementações de um sistema de failure state. Morrer é só o ato de recomeçar com mais experiência e sabedoria.

E quando temos tantos jogos que tratam a morte puramente como a única forma de gerar tensão por meio (o artigo de Josh Bycer no Gamasutra trata melhor as diferentes maneiras que eles podem ser aplicados), é bom ver um game com o “frescor” de Minit mostrar que o ato de “falhar” é uma etapa.

De etapa em etapa eu cheguei ao final de Minit. Planejei, contei os segundos e “morri” incontáveis vezes. Porém, em momento algum eu senti a vontade de desistir. Fiz mapas, bolei trajetos, usei o timer do meu celular para calcular rotas. Ok, ok, eu sei que eu exagero, mas é o meu jeito de fazer as coisas.

Só mais 60 segundos, só mais uma partida, só mais uma tentativa. Errar, aprender, continuar. A fatia do bolo ficava cada vez mais gostosa e o tempo passava ainda mais rápido. Da compressão de ideias em 60 segundos ao minucioso design, Minit merece um bocadinho da sua atenção.

Os metódicos 60 segundos de Minit

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.