Análise – Ys IX: Monstrum Nox

Como superar Ys VIII? A meu ver essa é uma tarefa muito difícil, uma a qual a Nihon Falcom se dispôs a tentar responder com uma mudança drástica. Uma que até eu mesmo não esperava. E agora, quase um ano após o lançamento no oriente, eu pude pôr as mãos em Ys IX: Monstrum Nox (PlayStation 4). E quanto mais eu jogava, mais eu sentia que não era esse o caminho que eu esperava para a franquia.

Já tradição da franquia, o protagonista Adol se vê em mais uma enrascada após ser acusado de roubo e acabar em uma prisão na cidade de Balduq. Após ser salvo por uma misteriosa mulher, Adol ganha poderes especiais. Ou melhor, ele se torna um dos Monstrums – seres que a cidade considera como “vilões” e causadores de destruição.

Claro que esta não é a realidade dos fatos e o que se passa dentro da cidade de Balduq é muito mais complexo do que bem vs mal. Neste ponto Ys IX supera qualquer um da franquia em termos de narrativa, mesmo que use elementos muito já bem estabelecidos por RPGs. O problema não é a qualidade da narrativa em si, mas o quanto ela se arrasta.

Eu tenho as minhas críticas sobre a narrativa de Ys VIII, especialmente a partir da segunda metade onde ela deixa várias pontas abertas, Ys IX entrega uma história que caminha a passo de lesma. “Ah mas é um RPG de ação”, sim eu compreendo mas não é o de praxe da Falcom fazer isto e a lentidão na narrativa é só a ponta do iceberg na questão de problemas de Ys IX.

Ah Balduq, tão grande mas tão genérica. Por que não tens distritos mais distintos?

Ys IX se foca primariamente na cidade de Balduq, nos seus diferentes distritos e especialmente te dar habilidades para navegá-la das mais variadas maneiras. Adol pode voar, subir pelas paredes, usar um “gancho” mágico para alcançar locais até então impossíveis. Nas primeiras horas de jogo é um deleite de explorar, mas depois de um tempo você começa a notar que Balduq é só mais uma cidade qualquer.

Por mais que outros jogos da série Ys como Ys Origin se limitassem a uma área – um castelo ou uma torre – ele nunca perdia o senso de aventura, de que algo novo estaria a espreita na próxima esquina. Em Ys IX eu sabia que a única coisa que me esperava era a cidade de Balduq, seus calabouços e suas cavernas.

Nessa área eu gostaria que a Falcom tivesse colocado um pouco mais de variedade; um pouco mais de identidade para Balduq. Navegar pelo distrito de lojas e pela área central da cidade se diferencia apenas pela posição dos NPCs, pois os tons de cinza permanecem o mesmo. Eu dou um desconto – e um baita de um desconto – pois essa foi a primeira grande tentativa da Falcom em desenvolver uma cidade desse escopo e sem as limitações técnicas que ela tanto sofria no passado, portanto há muito espaço para crescer. Afinal, se a narrativa caminha a passo de tartaruga, o que me fez chegar até o final dela não foi a cidade nem os personagens, mas sim o combate.

Se tem algo que eu não posso criticar da Falcom é o seu maravilhoso sistema de combate, Ys IX é o ápice do sistema introduzido em Ys Seven. O sistema de Flash Guard e Flash Move — onde você protege ou desvia de um ataque de oponente no momento certo — nunca estiveram mais precisos e a variedade de habilidades que tanto Adol quanto os outros personagens possuem dão um sabor a mais para cada batalha.

Fases de “Tower Defense” retornam de Ys VIII, mas eu não posso negar que me divirto bastante com elas.

Quando eu estava cansado de esperar a história avançar eu propositalmente grindava para ganhar pontos de experiência ou materiais para melhorar armas ou equipamentos. Eu detesto fazer grind em RPGs (embora a maioria dos atuais raramente requer que você faça isso), mas eu não perdia uma única oportunidade de lutar contra um grupo de monstros.

Isso também se estende em parte para o design dos chefões, que está um patamar acima dos entediantes de Ys VIII, mas muito longe do ápice da Falcom. Mais uma vez eu vejo isso como uma consequência do escopo de Ys IX do que a desenvolvedora perdendo a “mão” nos chefões.

O que vai ser mais um divisor de águas é o retorno da mecânica de “tower defense” de Ys VIII. Por mais que menos proeminente do que no antecessor, ela é “obrigatória” para acessar novas áreas. Por eu gostar muito do sistema de combate Ys IX, eu cheguei até repeti-las para obter novos materiais ou aumentar a minha pontuação.

Mas como bem falei acima, foi o combate de Ys IX que me carregou por boa parte da aventura, a possibilidade de aumentar o nível dos meus personagens, lutar conta monstros e já ser um fã da franquia há muito tempo. Pois se eu fosse alguém com o mínimo interesse em Ys, tratar Ys IX como uma “primeira entrada” no universo da Falcom, eu sairia decepcionado.

Ys IX
É o sistema de combate e os chefões que salvam Ys IX: Monstrum Nox

E essa é a grande questão para Ys IX e a Falcom para a futura geração: Como transpor a magia de Ys para novos ambientes e novas aventuras de Adol sem perder a sua identidade. Ys VIII foi excelente pois era um jogo em grande parte linear mas que conseguia manter o espírito da série vivo. Agora a desenvolvedora corre o risco de tentar voar alto demais, criar algo “mundo aberto” e acabar como outras séries de RPGs, genéricas e sem sal.

Torço muito para que esse não seja o caminho que a Falcom caminha com Ys. Nem todo jogo precisa de uma cidade gigantesca, nem de uma história que tenta colocar mais cinemáticas do que conteúdo. Às vezes tudo o que queremos é um bom RPG para relaxar. Ys sempre proveu isso aos montes, mas depois de Ys IX, fico um pouco com o pé atrás se isso irá continuar. Se você quer conhecer a franquia, o melhor mesmo é começar com Ys VIII.

Ys IX: Monstrum Nox

Total - 7.5

7.5

Por mais que eu aprecie os esforços da Falcom em expandir o lado “exploração” da franquia Ys, a cidade de Balduq e a sua narrativa arrastada não foram a melhor escolha. Acaba que Ys IX: Monstrum Nox é carregado por seu fantástico sistema de combate e alguns dos chefões. Fãs de Ys vão acabar satisfeitos com o jogo, mas não é um que eu recomendo para novatos da série.

Análise – Ys IX: Monstrum Nox

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- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.