Análise – Valkyria Revolution

Comecei a jogar Valkyria Revolution com o coração aberto. “Não vou traçar paralelos com Valkyria Chronicles, vamos tentar levar isso como um spinoff”, disse para minha mente que já agonizava nas primeiras duas horas de jogo. Talvez as coisas melhorassem com o passar do tempo, mas o game da Media Vision para PlayStation VITA, Xbox One e PlayStation 4 é um senhor teste de paciência.

Existem RPGs que são o que considero “slow burners”, que ditam um ritmo lento, apresentam suas intenções e seus personagens. Eu respeito jogos como Dragon Quest VII, Persona, Shin Megami Tensei no geral. Valyria Revolution é o contrário disto, não é o ritmo lento que atrapalha, mas o quão descompassado é.

Ambientado cerca de 100 anos antes de Valkyria Chronicles, a história gira em torno do pequeno país de Jutland, que após bloqueios econômicos realizados pelo Ruzi Empire, os levam a níveis extremos de falta de recursos e começam uma revolução junto a reconquista de territórios de outros países que caíram nas garras do Ruzi. Na frente disso estão um grupo de soldados conhecido com os Vanagard, de onde saem os protagonistas. Toda história descrita acima é contada como se o narrador estivesse com um outro compromisso marcado e já atrasado para ele. Cinco minutos depois o RPG te joga na troca de diálogos mais desinteressante em um RPG de 2017 e estende isso por ao menos duas horas.

“Olhe, aqui estão nossos protagonistas!”, diz o jogo como se apresentasse como uma peça de teatro. Cada um deles tem de ter uma fala, não importa o quão insignificante possa soar, eles precisam estar em cena. A missão inicial demora pelo menos trinta minutos para começar só por conta que cada um deles precisa mostrar uma visão diferente sobre o que significa o início dessa revolução. No que agrega de maneira geral? Nada, absolutamente nada. Nem mesmo uma menção posterior dessas visões distintas. Enriquecer o “background” de um personagem a fim de enriquecer sem levar em conta se o jogador extrai algo disso.

Não me leve a mal, eu sou completamente a favor de personagens bem escritos em qualquer tipo de mídia. Não é o caso com Valkyria Revolutions. O fato de se encaixarem em estereótipos do gênero é o de menos, o que incomoda é o quão, mesmo com esforços da Media Vision, superficiais são. Quinze horas de jogo e eu já não lembrava de metade dos nomes ou o motivo de estarem ali.

Piora ainda a situação que Amleth, um dos personagens centrais da trama, é uma tábua de madeira de expressão e motivação. Serve para ser empurrado de um lado ao outro como motivador para a trama e nada mais. Coadjuvantes tão superficiais quanto ele conseguem ter mais atitude. O problema gerado é uma falta de agência por parte do jogador, incapaz de mudar os fatos, e a necessidade de aguentar a já torturante história que tenta descrever passo a passo os horrores da guerra sem a sutileza de Valkyria Chronicles.

Valkyria Revolution

O adjetivo “sutileza” é o que mais falta em Valkyria Revolution. Tendo a ser o tipo de pessoa que se uma narrativa é fraca ou mediana, eu ainda consigo me interessar pelas mecânicas. Agora, não basta a narrativa fraca, o RPG consegue decepcionar até mesmo em continuidade das cenas ao ponto de eu ver a campanha de For Honor — o equivalente de um filme “direto para DVD” do final dos anos 90/2000 — melhor trabalhada. Isto não é um exagero.

Imagine os cortes de câmera mais bizarros seguidos por uma tela de loading cada vez que eles acontecem. Esse é o resumo de jogar Valkyria Revolution. Não há passagem de tempo, quiçá de ângulo. Quando ocorrem um dos dois elementos, pode esperar uma tela de loading de no mínimo quinze segundos. Quem tem paciência para aguentar isso em um RPG que dura 30 ou mais horas? Desculpa, eu não tenho. Para piorar a situação a animação dos personagens é tão fraca — oriunda, eu presumo, do baixo calibre monetário usado para o game — que fazem as telas fixas de Disgaea ou outros game da Nippon Ichi parecerem obras de arte.

Como eu falei, seriam problemas pequenos se a jogabilidade fosse algo merecedor de palmas, pelo contrário, ela merece vaias. Independentemente de se distanciar do estilo de turnos de Valkyria chronicles ou não, o combate de Valkyria Revolutions é tão superficial quanto os personagens que habitam o seu mundo.

Em uma só tacada ele tenta ser um action RPG, ter elementos de turnos, ter um sistema de combos e no topo elementos que podem ou não causar status negativos aos oponentes. Tudo isto juntado com um durepox de baixíssima qualidade que basta um tapa para desmoronar. Andar e atacar não gastam o “turno” do jogador, usar “habilidades” — como granadas ou rifles — gastam. Um sistema de cover existe por motivos que me sinto impossibilitado te explicar. Um aglomerado de ideias sem a menor coesão.

Era esperado que com tamanha granularidade as batalhas fossem ao menos desafiadoras, fizessem uso das mecânicas — mesmo que em pontos específicos. Se chegasse nesse ponto eu me daria como satisfeito. Grande parte do momento em que você controla os personagens, que eu amontoaria com um total de 30% de tempo de jogo, ou você ataca os inimigos sem o menor apreço pelas mecânicas, ou você é limitado a atacar pontos fracos de chefões até que eles sucumbam e você consiga causar mais danos. Conheço shooters, o suprassumo das mecânicas simples de entender, que faz batalhas com chefões melhor do que o game da Media Vision.

Valkyria Revolution não consegue extrair nenhuma utilidade dos sistemas, eles estão presentes como uma rebarba do design central. A lista de jogos, RPGs ou não, que são capazes de fazer melhor uso das mecânicas que compõem a base da jogabilidade é enorme. Em horas me sentia em um Musou, apertava os botões sem refletir sobre o significado, jogava no automático, só queria passar para a próxima cinemática para me desapontar um pouco mais.

Valkyria Revolution

A única coisa que não faz com que Valkyria Revolution seja completamente desperdiçado é a trilha sonora composta por Yasunori Mitsuda, que trabalhou em games como Xenogears, Chrono Cross e compôs um dos meus temas favoritos, o do final de Xenoblade Chronicles. Porém, falar que isso salva o game é a mesma coisa que dizer que o prato que eu pedi veio errado, queimado, podre, mas o suco que o acompanhava era gostoso.

Valkyria Revolution é o melhor exemplo que a SEGA e a Media vision podem dar que ambas as empresas não tem a menor noção de como tornar a franquia mais atrativa para um público maior e unir o que tornou o primeiro Valkyria Chronicles um excelente RPG por turnos da era PlayStation 3. É um jogo sem alma, sem carisma, com falhas tão absurdas que não pode ser melhor descrito do que “uma perda de tempo”.

Detesto ter de escrever tais palavras para um game, pois sei que foi feito na base do suor e lágrimas, com as limitações impostas. Se existisse em um universo paralelo, não disputasse espaço em um 2017 repleto de tantos ótimos exemplos de produções bem realizadas de todos os cantos do planeta, e soubesse enxugar as mecânicas e a narrativa ao invés de tentar agradar a todos, Valkyria Revolution seria mediano. Não é o caso. O melhor a se fazer é voltar para Valkyria Chronicles 1,2,3 e torcer para que esse seja não seja o fim da franquia.

Pensando bem… do jeito que as coisas andam é melhor que ela fique adormecida por uns bons anos.

Valkyria Revolution

Total
Valkyria Revolution pega todo o conceito de Valkyria Chronicles, o joga por água abaixo para entregar um Action RPG sem alma, com personagens desinteressantes e uma trama tão bagunçada e mal contada que faz frente aos piores exemplos de narrativa em games. Que seu destino seja o esquecimento.
Muito fraco

Análise – Valkyria Revolution

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.