Análise – Valkyria Chronicles Remastered

Eu imaginei que após quase dez anos desde o lançamento, tivesse esgotado meu repertório de palavras para comentar sobre Valkyria Chronicles. Agora com a versão Remastered, disponível exclusivamente para PlayStation 4, relembrei o motivo de ser um dos meus RPGs de estratégia preferidos.

Sempre vi Valkyria Chronicles como o anti RPG de estratégia japonês. Aquele que quebrou todos os paradigmas e estereótipos do gênero. Enquanto Disgaea sempre esteve por aí e com bons motivos conquistou uma legião de fãs, Valkyria Chronicles era, e ainda é, o que eu recomendo para aqueles que não gostam do estilo de jogo.

Ambientado em um conflito que faz quase que uma alusão a segunda guerra mundial, um império tenta conquistar boa parte da europa. Entre isso três moradores de uma pequena cidade de Bruhl acabam envoltos no combate e participam da Squad 7 pela reconquista do território tomado pelo inimigo.

O desenvolvimento da trama ocorre de mãos dadas com o desenvolvimento dos próprios protagonistas — Welkin Gunther e Alicia Melchiott — sobre o processo de amadurecimento e perda durante os tempos de guerra. Presumo que a esse ponto você já deve imaginar isso como algo bem clichê, mas acredite, não é tanto quanto se pensa.

Seria da minha parte completamente irresponsável não mencionar que Valkyria Chronicles se sustenta não só por eles, como toda a Squad 7 e os inúmeros coadjuvantes que vivem em Gallia. O arco de cada um jamais deixa a peteca cair e se mantém tão interessante quanto a história principal. Um traço que tipicamente não se vê dentre RPGs japoneses.

Valkyria Chronicles

A não necessidade de apelar para extremos estereótipos da cultura é uma das formas que torna o jogo tão acessível para quem não acompanha muito bem a cultura e desde 2008 eu vejo como um dos pilares mais importantes no seu fortalecimento. Este, que é composto apenas por sua sublime jogabilidade que parece não ter envelhecido um segundo sequer.

Em 2016 ainda temos o estigma de que jogos de estratégia com elementos de RPGs ainda são o equivalente ao que temos em Disgaea ou Final Fantasy Tactics. Grids desinteressantes para muitos e batalhas que duram tempo demais. Valkyria Chronicles pega a fórmula, triplica a ação e deixa tudo mais interessante.

Cada turno é ditado pelos Command Points, pontos usados para mover as unidades, que são regidas pelos Action Points — o quanto elas podem se mover dentro do mapa. É uma maneira mais interessante de ter controle sobre a situação do que apenas “aperte o botão, mova dois ou três quadrados”. Traz profundidade tática que na época, e de certa forma até hoje, é pouco vista no gênero ao menos do lado oriental.

Em inúmeras batalhas o jogador é forçado a fazer certas decisões. Os Command Points podem ser usados mais de uma vez em um único personagem ou guardados para o próximo turno. Será que vale a pena guardar alguns pontos para posicionar uma unidade atrás das linhas inimigas e infligir dano a um tanque? Ou quem sabe uma aproximação mais cautelosa é o caminho para o sucesso.

Por mais que a inteligência artificial não traga nada de novo para a mesa, a maneira que age em batalha é capaz a passividade do jogador de esperar para que ela atue antes de decidir a tática a ser usada. Em um breve contraste, XCOM Enemy Unknown de 2012 e publicado pela Firaxis sofreu muito deste problema em boa parte das missões, coisa que Valkyria Chronicles acertou na primeira tacada. Toda vez que o personagem se movimenta, ele tem independentemente da posição, uma chance de ser alvejado por fogo inimigo. São camadas e mais camadas de circunstancias que evoluem junto com a história, os personagens e o layout do mapa em uma grande sinergia.

Para quem já optou jogar a versão lançada para PC em 2014 não há nenhuma novidade a ser vista no quesito gráfico, que se mantém tão espetacular quanto antes e uma melhoria para uma resolução de 1080p e 60 quadros por segundo.  A estética puxada para um estilo mais rebuscado de arte é uma das coisas que faz com que Valkyria Chronicles também sobreviva ao teste do tempo.

Valkyria Chronicles

Alguns menus parecem um pouco mais borrados do que o normal, um pequeno problema que não deve ser levado em conta quando vemos o panorama geral. Se você não pegou a versão de PlayStation 3, melhor ainda, afinal agora temos a inclusão de troféus e todos os (ótimos) DLCs inclusos.

Valkyria Chronicles é um daqueles jogos onde as sequências, lançadas apenas para o PSP, nunca fizeram jus a franquia. É um jogo capaz de cativar amantes de estratégia e RPGs japoneses sem ter que apelar mais para um lado do que para o outro. Uma joia rara na indústria vinda de uma geração carente de RPGs marcantes e agora apresentada para uma nova audiência.

Independente de qual for o motivo, seja para matar a saudade de Gunther, Alicia e o resto do carismático grupo de personagens, ou adentrar o mundo dos SRPGs, Valkyria Chronicles é a melhor porta de entrada, e que porta de entrada sensacional, eu diria.

Valkyria Chronicles Remastered

Total
Com um elenco memorável, Valkyria Chronicles consegue misturar aspectos de vários gêneros, apresentar uma jogabilidade divertida e uma história que prende. Se você ainda não foi afortunado de jogá-lo, a hora é agora.
Excelente

Análise – Valkyria Chronicles Remastered

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.