Análise – Trials Rising

Já fui desses de perder a paciência com jogos, de me irritar, desligar o console e ficar emburrado. Isso foi anos atrás e desde então eu prometi a mim mesmo que isso não se repetiria, ou que ao menos eu tentaria não deixar visível. Mas eu quase quebrei essa promessa nas fases mais difíceis de Trials Rising (Steam / PlayStation 4 / Xbox One)

Eu devia me conhecer melhor e saber que jogar Trials ia inevitavelmente me irritar. Acompanho a série desde Trials 2: Second Edition, e desde então são onze anos de motos, solavancos, manobras absurdas, spin-offs… peculiares (Olá, Trials of the Blood Dragon) e aquele misto de tensão e alívio ao ver a tão sonhada medalha de ouro surgir na tela.

É óbvio que um novo Trials me empolgaria; afinal, são cinco anos sem um jogo da franquia (novamente, não conversamos sobre Trials of the Blood Dragon,) e muito mais se você considerar que a temática futurística de Fusion não desceu bem pela goela. Apertei iniciar e “conectando-se aos servidores da Ubisoft”. “Ah não”, falei em voz alta. “É um desses, não é?”.

É, é um desses. Um desses jogos que empurra goela abaixo que a noção de conectividade online vai de alguma forma “aprimorar a minha experiência”. Trials Rising é (quase) sobre isso. Entrei no menu inicial e sequer reconheci o jogo. Foram embora os menus simples e fáceis de serem navegados, em favor de um bizarro mapa-mundi para acompanhar a temática de um “tour mundial”. Ugh, me poupe, por favor, eu só quero pilotar a minha moto.

Trials Rising
Adição do “mapa-mundi” para escolha de fases mais prejudica do que ajuda.

Um personagem entusiástico aparece na tela, me explica como eu vou ser o melhor dos melhores, ou alguma baboseira assim (porque eu não prestei atenção), e me levou para o tutorial. Está aí a minha primeira surpresa, um tutorial! Sim, um tutorial e não umas duas fases que explicam “acelere e freie a sua moto”. E não só um tutorial extenso, mas um que pode ser acessado a qualquer hora e detalha as diferentes manobras, tanto as simples quanto as avançadas. Que alívio que deu ver isso, mas chega de papo; eu quero é ganhar medalhas.

Felizmente, o ato de jogar em si nunca esteve tão bom. O pulo de qualidade das bizarras motos de Fusion para motos com uma identidade própria (uma moto boa de manuseio em pistas leves, mas que carece potência, outra com alta potência, mas que requer precisão) torna fazer e refazer as partidas um deleite. Cada suspensão reage de uma forma diferente ao tocar o solo; você precisa compensar, mais do que nunca, jogando o corpo do motoqueiro para frente ou para trás. Em partes, eu me senti reaprendendo o que era Trials.

Neste aspecto, Trials Rising me lembra muito outra franquia da Ubisoft: Trackmania. Ambas têm uma deliciosa maneira de te fisgar pelas primeiras fases. Fáceis, simples de serem compreendidas, capazes de aclimatizar o jogador ao conceito de repetir e praticar até chegar no topo da tabela de liderança. Cada carro tem o seu estilo de direção, prós e contras, e você acaba uma sessão achando que entende tudo do jogo. Aí então vêm as fases avançadas, e as mais avançadas, e as extremas, e de repente são duas horas da manhã e você está na mesma fase pelos últimos 40 minutos e questionando as decisões que você tomou na vida.

Meus questionamentos começaram ao atingir as frases extremas e os desafios Ninja. Nisso eu bato palmas para a RedLynx em criar algumas das fases mais desafiadoras que já vi. Quem sabe um dia eu passo da última fase, mas com certeza não vai ser em 2019. Choros e cabelos arrancados à parte, as fases no geral não só têm um design muito mais coeso – novamente, abandonando a terrível estética de Fusion – como estão cheias de pequenas surpresas, atalhos, e novas maneiras de você apreciá-las – seja do ponto de vista estético ou ao completar contratos (mini-desafios propostos pelo jogo ao longo do modo carreira).

Trials Rising
Cenas como esta são comuns em Trials Rising.

Por falar nos contratos, eles são uma das minhas adições favoritas de Trials Rising. Tudo bem que a RedLynx exagerou um pouco na quantidade necessária para liberar novas pistas, mas também é um excelente incentivo para eu voltar em pistas anteriores e redescobri-las sob um novo olhar. Muitos deles envolvem fazer blackflips, frontflips, dirigir com uma roda só, ou o meu favorito: manter sua moto no ar por X segundos e torcer para não se estabacar na aterrissagem. Raros são os casos onde eu acredito que um sistema de “níveis” e “experiência” são positivos, mas aqui eu os vejo como cruciais para incentivar o jogador a realmente aprender as particularidades de cada moto e as habilidades necessárias para enfrentar os desafios mais extremos, ainda mais em um jogo que se esforça tanto em dar um tutorial competente.

Mas para cada salto em qualidade que a RedLynx deu em tudo que diz respeito ao ato de jogar em si, ela deu centenas de passos para trás quando se trata de “começar a jogar”. O meu suspiro de desaprovação ao ver “conectando-se aos servidores da Ubisoft” foi rapidamente justificado. Na tentativa de abraçar ainda mais a comunidade, toda corrida agora conta com “fantasmas” que não podem ser desativados, telas de carregamento, animações especiais de vitória e derrota. Antes era ver a medalha de ouro, quem sabe um ícone indicando que subi de nível, e partir para a próxima corrida. Agora eu tenho que ver um personagem sacudindo a bundinha porque venceu (confesso, foi engraçadinho a primeira vez, não muito a décima primeira). Isso quando não é a milésima notificação de que eu ganhei uma lootbox (Sim, Trials agora tem lootboxes, infelizmente), ou que alguma peça de equipamento para o meu motoqueiro está disponível. Bem, ao menos aqueles que adoram customizar o seu motoqueiro vão ter muito o que celebrar, graças ao vasto sistema de adesivos que podem ser colocados praticamente em cada pedaço da roupa, da calça e da moto.

Online, online, online. Tudo é sobre o maldito online. Mesmo se você instalar esse jogo no SSD mais rápido do planeta, ainda vai ter que lidar com a pequena demora entre o jogo carregar, se comunicar com os servidores a cada partida, fazer download dos fantasmas, e aí sim você pode jogar. Aparenta ser um problema minúsculo, e eu não ficaria incomodado se fosse o caso de um jogo como Steep – que também usa fantasmas e conectividade online. A diferença-chave é que um é um jogo na neve de mundo aberto onde você raramente é “tirado” do jogo para cair em um menu, e outro um jogo de corrida / acrobacias onde algumas fases podem durar 50 segundos.

Nem mesmo a central de pistas – o pilar da comunidade e o responsável por Trials ser continuamente jogado por anos a fio – fugiu das decisões bizarras. O sistema de estrelas foi trocado por avaliações negativas ou positivas, e isso torna ainda mais confuso saber se a pista é realmente boa / desafiadora ou se foi só criada para que o criador aprenda como o editor de pistas funciona.

Trials Rising

São esses detalhes que diminuem o meu interesse em continuar a jogar Trials Rising, e me fazem desejar Trials Evolution / Fusion ou até Trackmania. Enquanto Rising me enfia em menus atrás de menus, Evolution / Fusion e Trackmania me colocam na “ação” num estalar de dedos.  Eu não me importo com mapa-mundi, em ver fantasmas dos outros na minha pista. Mas também digo que é menos um problema de Trials, e mais um problema da indústria de jogos no geral. Tudo tem que oferecer mais, e mais e mais. Mais pistas, mais tempo de jogo, mais variações, mais contratos, mais motivos para você se prender no jogo e esquecer que o resto existe.

Trials Rising é simplesmente o resultado do que tantas outras empresas fazem no momento: seguir as tendências, tendências com as quais eu não concordo. Eu só quero a minha moto, umas medalhas e, quem sabe, uma pincelada de personalização para deixar a minha moto rosa – o resto é supérfluo. Mas se tem algo que a Ubisoft também já provou é que ela é competente o suficiente para dar a volta por cima e mitigar os problemas críticos. Quem sabe, daqui a umas duas atualizações, uns refinamentos aqui e acolá, Trials Rising tome o posto do melhor da franquia em todos os aspectos. Até lá, volto para as pistas criadas em Trials Evolution.

Trials Rising

Total
Com uma das melhores seleções de pistas da série e um excelente tutorial, Trials Rising às vezes se esquece de que a sua maior qualidade está no ato de vencer desafios, obter medalhas e se superar, e não navegar por menus, um mapa mundi, lootboxes e conectividade online mais frequente do que o necessário. Tem o potencial de ser o melhor de todos, mas ainda não está lá.
Bom

Análise – Trials Rising

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.