Análise – Total War: Rome Remastered

Desde o começo da pandemia em 2020 eu venho ouvindo uma série de podcasts. Um deles é o “History of Rome”. Embora raso e incapaz de substituir um bom livro, ele dá uma ótima ideia sobre a ascensão e queda de Roma. Decidi revisitá-lo enquanto escrevia a minha crítica de Total War: Rome Remastered. Assim que ele chegou na Segunda Guerra Púnica, eu falei bem alto “Aníbal talvez tivesse sucesso em Total War: Rome 2, mas não no original” — tamanha a disparidade entre os títulos.

Antes de mais nada, vamos comentar sobre o elefante da sala. Total War: Rome Remastered (Steam) não é uma reinvenção da franquia, não vai fazer você cair de amores pelo jogo original caso não tenha jogado o original antes, e as melhorias trazidas por ele são pontuais. Os visuais sem dúvidas estão melhores, a interface está mais amigável para os novatos, mas isso é quase nada quando se considera o que Total War: Rome realmente é.

Seja por uma decisão de design ou pelo acaso, Total War: Rome é o jogo da franquia mais focado em logística. Recrutamento global de unidades? Esquece, você vai ter que voltar para uma região onde há quartéis capazes de treinar novas tropas. Diplomacia em um botão? Esquece disso. Diplomatas são a sua ligação entre a nação com que você joga e outras nações. Agentes como espiões e assassinos não são tão poderosos quanto os outros jogos da franquia, mas ainda assim têm a sua utilidade. A Feral Interactive até adicionou uma nova unidade, o mercador, que quando usada de forma eficaz, pode aumentar o fluxo de ouro por turno.

Quando comecei a jogar essa versão remasterizada, pensei que seria só mais uma viagem para a nostalgia, que cedo ou tarde eu ia me irritar com certas mecânicas ou com a estupidez do movimento das minhas tropas. Para minha surpresa, isso ocorreu muito pouco.

Eu sou muito interessado nos aspectos logísticos de uma batalha — tanto que alguns dos meus jogos prediletos são Unity of Command 2 e War in the East / West. Total War: Rome 2 e os jogos posteriores da franquia tiveram este aspecto de certa forma reduzido, voltando com força somente em Total War: Three Kingdoms (não, o sistema de atrito patético de Total War: Rome 2 e Total War: Warhammer são meras distrações). Isso sem contar outras mudanças que vieram no período pós-Total War: Medieval 2, como não ser necessário esperar mais de um turno para cercar uma cidade, o já mencionado recrutamento global, e a remoção de diplomatas.

Os novos ícones podem não agradar a todos, mas eles são muito úteis para compreender a moral e munição das suas tropas.

Por consequência, Total War: Rome Remastered é um jogo muito mais lento, cauteloso, onde tomar a decisão certa em um turno pode tomar horas. Eu não estava preparado para isto.

Comecei com a casa Julii, uma das três casas de Roma e cujo foco é enfrentar os “bárbaros” ao norte: Gauleses, Britannia, Espanha e tribos germânicas. Se você jogou o original, sabe que muitas dessas tribos são demonstradas de maneira anistórica — com um destaque para o Egito, que no jogo ainda usa equipamentos da era de Bronze — mas cumprem a sua função.

Meu primeiro alvo, é claro, foram os Gauleses. Ainda desacostumado com o ritmo de Total War: Rome, eu peguei meus exércitos e comecei a tomar as principais cidades deles. “Molezinha, os Gauleses nunca foram uma grande ameaça no jogo original”. Ênfase para “no jogo original”.

A Feral Interactive pode ter alterado um pouco da IA do jogo, mas ela certamente garantiu que seus oponentes não desistiriam tão fácil de uma luta. Os próximos dez turnos foram marcados por um troca troca de cidades, ora dos Gauleses, ora dos romanos. Não consigo imaginar os cidadãos — ou o que restou deles — muito felizes com a situação.

Porém, por mais que a Feral tenha refinado esta área, a IA de Total War Rome: Remastered ainda teima em criar “stacks” de inimigos com uma ou duas tropas pelo puro prazer de dar cerco nas suas cidades. É uma tática válida, mas irritante, já que você acaba sempre sofrendo uma penalidade à ordem pública, é impossibilitado de levantar edificações, e outros pormenores. Há um bom motivo pelo qual Total War: Rome veio a ser conhecido no período do lançamento como um jogo de “cercos”.

Total War: Rome Remastered
Favor parar de fazer bullying comigo tribos germânicas, obrigado.

Isso não se limitou aos Gauleses, mas também a Britannia, Espanha, e assim continuei minha lenta conquista territorial, completando missões para o senado até conseguir chegar no “endgame” — unidades pesadas, guerra civil em Roma e batalhas ainda mais intensas. Cada turno vinha quase com um ritmo próprio, como uma batida descompassada a que eu tentava me ajustar. E mesmo nesse descompasso eu nunca me senti sobrecarregado de informações.

Reforço este ponto pois Total War: Rome 2 estava tão preocupado em ser mais grandioso, com novas mecânicas, com tantas novas opções, com uma interface mais “moderna”, que a maioria das vezes que eu sentei para jogá-lo, pensei “Nossa, eu realmente queria voltar para Total War: Rome”.

Todavia, creio que Total War: Rome Remastered mostra a sua “idade” quando o assunto é batalhas táticas contra a IA. A Feral tentou, mas o pathfinding das unidades — ainda mais cavalaria — continua caótico. Em vários cercos eu tive que micro gerenciar cada unidade para que elas fossem para a área que eu queria ao invés de se enfiarem numa rua estreita e acabar virando recheio de um sanduíche do exército inimigo.

Mas quer saber? Apesar dos pesares, isso só aumenta o charme de Total War: Rome Remastered. Da logística ao micro gerenciamento de unidades, as diferentes notificações que o jogo te dá no início de cada turno me faziam repensar “será que avançar a minha frente é uma boa ideia ou melhor esperar certas construções finalizadas”?

Pouco a pouco eu me adaptei ao ritmo e estilo de Total War: Rome Remastered. Garantia que um exército “reserva” estava sempre próximo dos meus generais, calculava meticulosamente que tipo de cidade eu iria cercar, se valeria a pena ou não completar as missões enviadas pelo Senado — obviamente ignorando a maioria que envolvia Cartago que eu tenho é medo daquela gente.

Interface modernizada é uma bela ajuda para quem nunca jogou Total War: Rome

Não é à toa que desde então muitos modders tentam recriar ou expandir a “experiência” de Total War: Rome. Seja Roma Surrectum III para o jogo original, Europa Barborum II para Total War: Medieval 2 ou, mais recentemente, Divide et Impera para Total War: Rome 2.

Mas a questão é que essas são apenas tentativas e, embora eu aprecie toda a pesquisa para criar autenticidade nesses mods, eles são apenas uma faceta do que faz Total War: Rome ser… bem… Total War: Rome. Com a exceção de Roma Surrectum III, os outros mods foram construídos em cima de jogos cujos pilares já estavam muito além do que Total War: Rome buscava ser. É um jogo de seu tempo, um desenvolvido durante um período borbulhante dos jogos de estratégia, dois anos depois de Warcraft III, no mesmo ano que Warhammer 40K: Dawn of War e um ano antes de Civilization IV.

Por isso mesmo, não espere um jogo com sensibilidades modernas — por mais que a Feral Entertaiment tenha trabalhado pesado para fazer o aprendizado o mais fácil possível — e não espere um jogo sem falhas. Sequer o compare com os jogos modernos; é perda de tempo. Ele não deixa de ser bom por conta disso, pelo contrário. Eu acredito que, quanto mais olharmos para o passado e como certas mecânicas foram implementadas em jogos de estratégia — ou até jogos no geral — mais poderemos evoluí-las no futuro.

A importância de Total War: Rome foi que ele serviu de fundação para a Creative Assembly evoluir os seus jogos posteriores. Foi o momento onde tudo se encaixou no seu devido lugar — uma empresa relativamente pequena criando um jogo terrivelmente ambicioso para seu tempo (se você tem interesse em saber mais sobre o desenvolvimento, recomendo muito ouvir o papo que rolou no Three Moves Ahead). Eles acertaram e o resultado está aí: uma das franquias de estratégia mais conhecidas da atualidade.

Total War: Rome Remastered não é só para os saudosistas e nostálgicos. É para todos que têm o interesse em conhecer mais sobre a franquia, ver onde certas sementes foram plantadas e posteriormente colhidas em futuros jogos. É um jogo com seus problemas na IA, imperfeito, até enfurecedor.

Total War: Rome Remastered
Cercos continuam tão “divertidos” quanto no original. Recomendo paciência.

Mas assim que você ouve o sons dos instrumentos de sopro, o discurso feito por seu general enquanto você marcha para a sua glória ou sua derrota, tudo isso vai para o fundo da mente. “É Total War: Rome, eu estou em casa, mais uma vez”.

Total War: Rome Remastered não é só o retorno à casa, é a certeza de que eu ainda tenho muito para apreciar pela frente nesta incrível remasterização. Mal posso esperar para adentrar nas mudanças de Barbarian Invasion e até mesmo Alexander. Meu desejo? Que uma comunidade de modders seja criada ao seu entorno e traga ainda mais melhorias.

Seja em 2004 ou 2021, pode demorar mais do que outros jogos de estratégia, mas eu tenho certeza que  Rome Total War: Remastered vai te conquistar.

Rome Total War: Remastered

total - 8.5

8.5

Total War: Rome Remastered ainda é um jogo do seu tempo. Foi a guinada que a Creative Assembly deu para transformar uma franquia relativamente desconhecida no sucesso que é hoje em dia. O trabalho da Feral Interactive em “modernizá-lo” sem perder a essência é fantástico. Mas se você for se aventurar no passado, saiba que as peculiaridades e algumas falhas de IA ainda estão presentes. Para mim faz parte do charme, e eu espero que o mesmo valha para você.

Análise – Total War: Rome Remastered

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.