Análise – Stellaris: Ancient Relics

Se excluirmos MMOs que estão há anos no mercado, como World of Warcraft, Lineage 2 e outras dezenas de clássicos, não deve existir uma desenvolvedora que faça ou refaça mecânicas importantes de um game como a Paradox faz. Dois dos últimos lançamentos da empresa — Stellaris e Hearts of Iron IV — provam que a desenvolvedora não tem receio de mudar quando precisa (ou talvez que ela necessita urgentemente deixar os seus jogos no forno por mais um tempo). Surpreendentemente, a alteração “drástica” da vez não vem via uma expansão para Stellaris, mas sim pelo Ancient Relics Story Pack (Steam / GOG), que traz consigo longas ramificações para a visão do grand strategy ambientado no espaço.

Dado a minha “menos do que esperançosa” experiência com eventos como vistos em Leviathans Story Pack e Synthetic Dawn (apesar deste ser um pouco melhor), eu já não tinha muita esperança de que Ancient Relics pudesse trazer alguma diferenciação impactante na partida. Olhei para ele e já pensei: “lá vem uma dúzia de eventos novos, e olhe lá.” Já que a temática era escavação e antigas relíquias, decidi partir e criar uma civilização voltada para os estudos científicos, amistosa com raças alienígenas, e no geral bastante pacífica.

No fundo, jogar com esse tipo de espécie ainda é um pouco complicado em Stellaris, principalmente devido à ocasionalmente funcional diplomacia. A inclusão de distritos e o rework de planetas trazido com Megacorps ajudou bastante a tornar um estilo “tall” moderadamente mais viável. Mas, infelizmente, Stellaris ainda é profundamente sobre entrar em guerra. Mesmo ciente dos problemas, segui com a minha visão, pois o intuito era explorar sistemas, descobrir relíquias e conhecer como o DLC (e sua atualização gratuita) interagem entre si, especialmente considerando os novos métodos de escavação e arqueologia.

Com toda cautela, comecei a minha expansão pelas estrelas focada quase unicamente em pesquisa — um erro do qual que eu iria me arrepender amargamente depois de algumas horas. Construí as minhas frotas de naves de pesquisa e as soltei pelo universo em busca de relíquias.

Um alerta piscou na minha tela; era uma transmissão sobre um misterioso objeto encontrado ao sondar um planeta árido. Ele estava fora das bordas do meu império, o que requeria a construção de um porto estelar. Eu teria que pagar uma taxa relativamente alta de manutenção para ter um porto num planeta no qual a minha espécie não iria se adaptar. Fui em frente mesmo assim, em parte por minha teimosia e curiosidade.

Ancient Relics
Planetas com possíveis relíquias podem ser vistos no mapa via um novo ícone.

O que a Paradox oferece como o “novo” sistema de arqueologia em Ancient Relics é uma cadeia de eventos. Essas cadeias já existiam em Stellaris, muitos deles encontrados antes no “Situation Log”, onde você inevitavelmente teria de “parar” uma pesquisa importante para explorá-los. O novo sistema, por outro lado, incentiva o jogador a gastar pontos para recrutar novos cientistas, ter mais naves de pesquisa e saber equilibrar a taxa de manutenção das mesmas com o investimentos no restante do império em early e mid game. Já o ato de fazer as pesquisas em sim, bem… mais parece o sistema de cerco de Europa Universalis IV do que qualquer outra coisa. Selecione um cientista e observe uma barra ser preenchida contando os dias que ele está “brincando” de Indiana Jones. Quanto melhor a habilidade do cientista, menos tempo demora para a escavação ser concluída.

Faria duras críticas ao sistema, que honestamente é um tanto monótono, se não fosse — como disse anteriormente — a ramificação dos eventos. Os eventos gerados a partir desse novo sistema são interessantes; muitos eventos anteriores foram expandidos com novas linhas de diálogo e um pouco mais de “tempero”; pois no fim das contas, atiçar a nossa imaginação ainda é um dos pontos fortes do jogo.

O segundo fato que tornou explorar esse Story Pack mais interessante do que os anteriores é a noção de que algumas linhas de quests importantes podem estar localizadas dentro das fronteiras de civilizações inimigas. Foi nessa hora que eu notei que expandir a minha frota no early game não foi a melhor das ideias.

Entre as novas civilizações antigas adicionadas ao jogo estão os Boel, uma peculiar raça que aparenta ser similar a uma Hivemind — uma única consciência compartilhada entre todos os seres dessa espécie. A história dela, muito bem contada através de diversas investigações e escavações feitas ao longo do jogo, foi interrompida abruptamente devido ao último planeta estar detrás de uma civilização de meio porte, xenofóbica e militarista. Como a diplomacia de Stellaris continua aquela “maravilha” (e eu continuarei a falar isso até que eles a melhorem), não havia muito o que fazer para agradar aquela civilização ao ponto de me permitirem acesso aos seus planetas.

Ancient Relics
Sistema de escavação em Ancient Relics lembra bastante o cerco de Europa Universalis IV

Mas esse singelo fato de Ancient Relics me deu uma coisa que Stellaris precisa dar mais vezes: motivo. Agora eu tinha um ótimo motivo para voltar atrás, reavaliar a minha árvore de pesquisa, me aliar com outras civilizações e potencialmente entrar em guerra — ou ao menos achar uma maneira de desestabilizar a facção em cujas fronteiras o planeta dos Baol estava localizado. Para um jogo que até hoje busca a noção de “dar bons motivos” para continuar a jogá-lo, isso é um passo enorme.

Fui em frente com o meu plano; comecei a construir corvetes e destróieres, me aliei com outras facções ao ponto de elas confiarem em mim o suficiente e partir para a guerra. Infelizmente não encontrei outra solução mais amigável.

Agora com a parte que era do meu interesse sob meu controle, rapidamente enviei um dos meus cientistas para realizar uma investigação e possível escavação no planeta. O que eu encontrei foi uma longa e interessantíssima história sobre a raça, e um dos últimos componentes daquela espécie ainda vivo. Eu tinha a opção de desconectá-lo da máquina para sempre ou usá-lo como minha cobaia. Deixei o altruísmo de lado e o peguei para a minha espécie. Esperava uma reação mais forte da minha população, tendo em vista que eles são relativamente pacíficos e já não ficaram contentes com a minha guerra. Entretanto o que eu recebi foi o mais puro silêncio; quem sabe eles não têm problemas com escravização de raça alienígena antiga… O “bônus” que os Baol me davam era o aumento considerável no crescimento populacional; uma pena eu os ter obtido tão tarde na partida, pois eles teriam sido de grande ajuda no early game com esse bônus passivo. Entretanto, as minhas escavações intergalácticas estavam longe de terminar.

Imediatamente depois de concluir a história dos Baol, dois novos alertas surgiram de possíveis escavações. Sedento por conhecimento (e relíquias), eu fui para o mais próximo do meu planeta natal. Com o meu cientista já experiente, não tardou para que ele efetuasse todo o processo de escavação; entretanto, o que eu descobri não foi nada agradável. O monstro do Story Pack Leviathans — antes visto via eventos — agora faz parte do novo sistema, e ele infelizmente surgiu ao lado do meu planeta principal, praticamente bloqueando a minha passagem para outros setores da galáxia. Com meus aliados me abandonando após a guerra, não vi opção a não ser abandonar a partida. Não tinha poderio militar o suficiente e as decisões feitas no early game foram extremamente desfavoráveis para mim.

Ancient Relics
Os bônus do Baol são um prato cheio se você consegui-los em early game.

Apesar do final decepcionante da partida, Ancient Relics proveu o que nenhum outro Story Pack havia provido até então: uma excelente interligação entre mecânicas que abrangem Stellaris como um todo e a pontualidade de novos eventos e as maneiras de interagir com eles. Eu agora imagino como podem ser as próximas partidas, quais novas relíquias irei encontrar, e como criar novos impérios que façam um excelente uso das mesmas.

Ancient Relics demonstra o tipo de elemento que todo DLC de Stellaris, independentemente do tamanho, precisa ter. Eu pessoalmente preferiria um sistema mais interessante para o sistema de escavação do que uma “cópia” do modo de Cerco de Europa Universalis IV ou Crusader Kings 2. E, considerando o que a Paradox tem feito, não duvido que essa mecânica seja alterada no futuro.

Continuo com as minhas dúvidas se o game chegará aos pés da visão inicial que a Paradox tinha para ele. Todavia, contando que eles continuem a mexer nas mecânicas – e já demonstraram que estão dispostos a adicionar mais complexidade ao game – uma hora ele vai sair desse limbo em que ele persiste há tanto tempo. E, quem sabe, vai também resolver essa maldita diplomacia terrível.

Stellaris: Ancient Relics

Total
Depois de muita tentativa e erro (principalmente erros) a Paradox finalmente equilibra a inclusão de novos eventos com um sistema que altera — mesmo que mais superficialmente do que eu esperava — o ritmo de uma partida de Stellaris. Que Ancient Relics seja usado como exemplo para os próximos Story Packs do grand strategy.
Muito bom

Análise – Stellaris: Ancient Relics

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.