Análise – Space Hulk: Tactics

Muito me surpreende a Cyanide Studio não ter sido a primeira a desenvolver uma versão digital de Space Hulk – trabalho primeiramente feito pela Full Control de Jagged Alliance Flashback, que teve seu estilo fiel até demais ao board game que o inspira. Space Hulk: Tactics (Steam / PlayStation 4 / Xbox One) está para o board game original assim como Blood Bowl 2 está para o sistema de regras do jogo de futebol americano: revigora sem prejudicar (tanto).

Você já deve conhecer a história. Um Space Hulk — o conglomerado de espaçonaves abandonadas — surge em território do Imperium of Man, uma equipe de exterminadores dos Space Marines é enviada para lidar com a ameaça, e nada ocorre como o previsto. Minha principal crítica em relação às duas digitalizações anteriores – Space Hulk e Space Hulk Ascension – surgia quando pensava no ritmo da partida. A versão física do jogo de tabuleiro é “rápida”. Você monta o tabuleiro, segue a guia de referências, um jogador move os Genestalers — os “vilões” que habitam o Space Hulk — e o outro move os Ultramarines, Blood Angels, ou seja lá qual for o “chapter” dos Space Marines que está na partida. É você quem move as unidades e joga os dados, e não é preciso esperar um ciclo de animação ser finalizado – tampouco ler um log de combate. São as emoções de uma partida local que nenhuma versão digital vai conseguir replicar 100%.

Para compensar essa falta de fisicalidade, a Cyanide opta por tornar o combate mais dinâmico. Saem as partidas de mais de uma hora e entram embates com turnos rápidos, limite de tempo e novos objetivos. Plante uma bomba em um tempo limite, ative ou desative terminais específicos, resgate Space Marines – objetivos que quase sempre requerem perspicácia e atenção. Que jogo melhor para adicionar isso se não Space Hulk, que te força a colocar unidades em corredores tão apertados que só uma pode se mover por vez, até bloqueando o campo de visão da outra?

Sei que costumo falar da máxima “aproveite os turnos da melhor maneira possível” quando trato de XCOM 2, mas tal conceito não poderia se encaixar melhor do que em Space Hulk: Tactics e o sistema de cartas introduzido pela Cyanide. Cada unidade tem um limite de pontos de ação; um disparo custa um ponto de ação, mover a unidade um quadrado também, alterar o ângulo em que ela se posiciona idem. Ações mais elaboradas, como interagir com sistemas, requerem quatro pontos ou mais. Cartas, por outro lado, podem ser usadas para garantir que as ações tomadas tenham menor chance de erro (um ataque corpo-a-corpo pode ter 100% de chance de acertar caso use uma carta bônus), ou convertidas em mais pontos de ação.

Space Hulk: Tactics

Como alguém que já fez parte do coro “só serve se for fiel ao material original” no que diz respeito a regras de jogos de tabuleiro, fico hipnotizado em ver como o sistema da Cyanide se entranha no design original de Space Hulk ao ponto de se imaginar que ele sempre esteve ali. Ele eleva a versão digital para atrair um público que não teve ainda contato com a série, sem desregular o equilíbrio de uma partida. Se versões anteriores me faziam ser muito cauteloso com os Space Marines, aqui aproveitava as cartas para tentar limpar uma sala de Genestealer, fechar as portas, e criar um chokepoint. Até me arrisquei a dar passos largos por uma sala repleta desses maléficos alienígenas na esperança de alcançar o objetivo antes deles. Não deu muito certo.

Nesse mesmo tom, elogio a incrível habilidade da Cyanide em traduzir as ações do Genestealers para uma versão digital; não é sempre que temos uma nova facção que — mesmo presente na versão física — tenha seu “DNA” mantido de forma tão impecável. Triste foi ver que os anos sem encostar em uma versão física de Space Hulk me deixaram enferrujado em jogar com os Genestealers; uma batalha com eles e eu já notei a urgência de mudar a maneira como eu compreendia o mapa. Carentes de armas de longo alcance, as suas principais unidades compensam com um alto grau de evasão e menor custo para suas ações. Porém, não dá para chegar e me enfiar em uma sala com dois Space Marines e esperar que eu saia ileso. Afinal, basta um ataque meu nele — e vice-versa — para que um de nós caia no chão morto. Claro que foi isso que fiz dezenas de vezes, com os mais variados resultados – vitória, derrota, empate. Uma tática perigosa, sim – porém viável. Nesse contexto o sistema de cartas entrou para aumentar ainda mais a evasão, o que salvou a minha pele de uma completa derrota. Tais peculiaridades não os Genestealers sejam necessariamente mais fáceis ou difíceis de jogar do que os Space Marines; apenas diferentes. E ser diferente sem diluir ou punir um dos lados é algo difícil de conseguir, e por isso conquista um outro senhor elogio meu para o trabalho da Cyanide – algo que não me surpreende, sabendo que a empresa fez isso com as dezenas de facções em Blood Bowl 2.

O que me surpreende é que ela continua a acreditar que só existe um tipo de jogador de Space Hulk: o que só está interessado no multiplayer. As opções para essa categoria são variadas: suporte à criação de mapas, facilidade de convidar pessoas pelo Steam, dezenas de opções de personalização dos esquadrões e as suas respectivas cartas. Isto é, você vai aproveitar isso se tem certeza que tem de vinte a quarenta minutos para sentar e jogar uma sessão completa. Multiplayer assíncrono? Partidas por email (PBEM)? Esquece.

Space Hulk: Tactics

Me assusta pensar que opções como essas não estão presentes em um jogo de estratégia desse porte e com partidas de médio a longo prazo. Pois, se for para ser sincero, a quantidade de pessoas que eu conheço que são interessadas em Warhammer 40K pode ser contada nas duas mãos. Filtre por pessoas dispostas a jogar Space Hulk: Tactics comigo e essa lista cai para dois, um na Itália e o outro no Japão. Imagine o “caos” que foi sincronizar o meu relógio biológico para combinar partidas com eles – coisa que podia ter sido muito bem evitada se o jogo me deixasse criar uma partida via email ou até mesmo usar algo similar ao sistema de notificação que a Mode7 usa em Frozen Synapse — também útil para ter várias partidas em andamento. Lembro-me que a minha penúltima partida acabou em derrota pois eu estava com tanto sono (eram cinco da manhã) que eu sem querer apertei o botão de “finalizar turno” ao invés de andar com a última unidade e alcançar o objetivo. Sei que é um exemplo meio exagerado, e não imagino que você só vai ter amizades do outro lado do atlântico para jogar Space Hulk, mas demonstra muito bem o problema de Space Hulk: Tactics em não só não acompanhar o andar da tecnologia, como em não oferecer alternativas para aqueles que têm uma vida mais corrida.

O que só piora quando eu olho para o que é oferecido para o modo single-player: duas campanhas que “aparentam” ter profundidade, mas não são nada mais do que uma série de missões amarradas por um “mapa mundi” que nem precisava existir de tão inconsequente que ele é para a história; péssima quantidade de personalização (você não pode alterar o tipo de equipamento das suas tropas no modo campanha); e um sistema de upgrade de cartas que — num dos poucos deslizes da Cyanide — prejudica feio o equilíbrio de Space Hulk: Tactics. Cartas que eu estava acostumado a ver dando bônus de 20 ou 30% viram 5%, para me fazer “explorar” o mapa e “tomar decisões” sobre como eu devo evoluir meus personagens. Uma ideia boa na teoria, confesso, mas que não funciona quando pareada com a base que solidifica a jogabilidade de Space Hulk: Tactics. Nesse caso, a fidelidade do restante dos sistemas ao material original não permite tamanha maleabilidade.

Esses deslizes são mais sentidos durante a durante a campanha dos Space Marines, já que estes dependem de precisão nos disparos, e cartas de bônus tornavam as partidas de skirmishes ou contra outros jogadores dinâmicas. A margem de erro era menor, e consequentemente, podia-se obviamente explorar outras opções que não se resumem a “andar lento e torcer para chegar no objetivo a tempo”. As primeiras missões são travadas, entediantes. Só a partir do quinto ou sexto mapa que as coisas começam a engrenar, caso que acontece em menor intensidade com os Genestealers pela alta taxa de evasão e por serem mais voltados ao combate corpo a corpo. Claro que as cartas, como mencionei antes, fazem a diferença para eles, mas não ao ponto de desequilibrarem as missões por conta de uma porcentagem incrivelmente mais baixa. Pior é saber que a Cyanide recomenda você começar com a campanha dos Space Marines. Para isso eu sugiro apenas muita paciência.

Space Hulk: Tactics

Esses deslizes acontecem; “faz parte do jogo”, eu diria, se isso não fosse uma reclamação recorrente minha com a Cyanide. Traços disso podem ser encontrados quando eu escrevi sobre Blood Bowl 2 em 2015; mencionei os excelentes sistemas e critiquei a não opção de salvar partidas, a IA mediana, e a carência de muitos times da versão anterior. Tais defeitos só foram sanados anos depois com o lançamento da Legendary Edition, que agora considero a versão “definitiva” do game. A história agora se repete em 2018.

De um ponto de vista de alguém que respira estratégia em turnos e tem um imenso apreço por ver um design bem executado, Space Hulk: Tactics é a melhor versão digital do game de tabuleiro. Evolui as regras sem debilitá-las, oferece um criador de mapas para as partidas multiplayer e dezenas de opções para eu criar a minha partida da maneira que eu bem entender. Por outro lado, a carência de um modo single-player competente me faz desejar voltar a Space Hulk Ascension – a segunda versão feita pela Full Control e que é muito mais “gamificicado” – e a falta de um modo multiplayer assíncrono me faz repensar as horas livres que tenho e se realmente vale a pena “perder tempo” com isso. Não dá para acordar todo dia à meia noite, não dá para deixar o jogo rodando em segundo plano para conseguir aproveitar o modo online. Isso é inconcebível; até jogos como Civilization VI oferecem isso, por que não Space Hulk Tactics? Ah, como queria ter uma resposta.

Muitos jogos são criticados por mim pela quantidade de conteúdo e a superficialidade dos mesmos. Até nisso Space Hulk: Tactics é diferente. Queria mesmo era que fosse ainda mais e não me fizesse criticar a falta de conteúdo. Bom, sempre há uma chance de termos Space Hulk: Tactics Legendary Edition, não é mesmo? Melhor ainda seria se não existisse essa necessidade.

Space Hulk: Tactics

Total
O trabalho quase impecável da Cyanide em transportar Space Hulk para o ambiente digital com o mínimo de alterações possível e para um novo público só é barrado pela dificuldade da desenvolvedora em criar conteúdo que te dá vontade de gastar mais tempo em eliminar Genestealers. Space Hulk: Tactics é a melhor tradução até então; só quero que me dê mais e melhores motivos para jogá-lo com maior frequência.
Bom

Análise – Space Hulk: Tactics

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.