Análise –  Shenmue I & II

Levanto mais um dia na cidade de Yokosuka, calço o meu sapato e saio de casa. Preciso falar com alguém que pode ter informações sobre as pessoas que mataram meu pai, mas ainda não posso, ainda é cedo. Aguardo algumas horas, me pedem para falar com ele na manhã seguinte. Eu aguardo. Visito a cidade, jogo um pouco de Space Harrier, mas não posso gastar muito dinheiro — quem garante que não irei precisar dele em breve? Acho melhor voltar para casa e esperar. E pode se acostumar com isso, pois uma das coisas que você mais vai fazer em Shenmue I ou Shenmue II (Steam / PlayStation 4 / Xbox One) é aguardar, esperar. Ter paciência.

Eu passei pelo menos os últimos dez anos ouvindo pessoas falarem de Shenmue, tentarem gostar do jogo, compará-lo (às vezes equivocadamente) com a franquia Yakuza só por se passar no Japão (mesmo que a temática e o ritmo sejam totalmente diferentes), dizerem que é sobre isso ou sobre aquilo. Guias foram escritos para definir a melhor “maneira” de aproveitar Shenmue. “Escolha as vozes em japonês pois são melhores do que as de inglês!”, apontam. “Tenha um caderno em mãos!”, dizem outros. Para mim, muitos esquecem do essencial: aprender a ter paciência.

Acredito que grande parte da nossa vida nós não necessariamente “aprendemos” a ter paciência; nós somos obrigados a ter paciência. Um pedido demorou? Azar, agora é esperar até que ele chegue. Um email que não dá as caras na sua caixa de entrada e te deixa ansioso, irritado, preocupado. Frequentemente é difícil ver ou saber porque algo demora, e parte de saber esperar é saber que nem tudo ocorre da maneira que gostaríamos, ou na velocidade que desejamos, e que muitas vezes há bons motivos para isso. Não falo nem de compaixão, isso é assunto para outro texto, mas sim de compreensão.

Pois, por mais que se trate de uma história de vingança, Shenmue é dolorosamente lento. E não estou exagerando; a história do primeiro game se arrasta de forma totalmente desnecessária e só começa a ganhar ritmo a partir da metade do segundo. Isto vem junto de um mundo que não existe somente para o protagonista. As lojas têm horários para abrir e fechar, pessoas seguem com a sua rotina cotidiana, e não esperam prontamente para que Ryo surja do nada para iniciar uma quest ou algo. Não chegou no local na hora certa? Então vai ter que esperar até o dia seguinte para poder avançar na história.

Sei que isso é dado como o “normal” atualmente, mas é bom lembrar que em 1999 isso não era a regra — muito menos em consoles. Traços assim eram quase que exclusivos de Ultima VII e outros RPGs de PC. Só que, ao invés do game de Richard Garriot e da Origin Studios, que te permite fazer loucuras, não há exatamente muito o que fazer em Shenmue.

Shenmue

Acredite, você vai passar muito tempo colecionando bonequinhos.

Seja na cidade de Yokosuka, onde a trama começa, na Hong Kong de Shenmue II, ou tantas outras localidades, você tem apenas um punhado de atividades adicionais para ajudar a “passar o tempo”, que vão de jogos arcade a bizarras corridas de patos ou de empilhadeiras. Mesmo assim você acaba com um monte de tempo livre (salvo em Shenmue II, onde a opção de avançar o tempo durante eventos importantes para a história foi adicionada). Resta somente você “explorar” as localidades.

Nessas horas você precisa parar, compreender e pensar “É, não é um jogo tão novo, não é razoável esperar por inúmeros eventos em algo que ainda engatinhava nos consoles”. Por isso mesmo, sim, paciência é a mentalidade necessária para aproveitar Shenmue.

Independentemente das texturas não serem “top de linha” da atualidade, e mesmo que a remasterização tenha ajudado com alguns aspectos — como novas texturas para o céu — as localidades de Shenmue são tão deliciosamente detalhadas e repletas de coisas a serem “exploradas” que se você tem paciência, olhando as coisas com calma, vai rapidamente se apaixonar e, quem sabe, nem ver o tempo passar.

Mas também não vou deixar ser levado pela nostalgia e dizer que é um jogo perfeito, maravilhoso, uma obra prima. Ele não era em 1999 e é muito menos em 2018. Quando você não está apaixonado pela cidade, você tem que aturar um dos sistemas de combate mais intragáveis e desnecessariamente confusos; controlar Ryo é saber que cedo ou tarde você vai enfiar a cara em uma porta ou em um poste — um dos aspectos que esperava que fossem ao menos mais refinados na versão HD, e não foi. Também é preciso aceitar que a história não é grandes coisas. Isso sem contar a terrível mixagem do áudio – que faz o meu gravador portátil, que nem é dos melhores, soar excepcional.

Esses pontos negativos são, entretanto, frequentemente compensados por características que fazem de Shenmue algo peculiar. Por exemplo, a necessidade de você usar a visão em primeira pessoa para ler o que está escrito em uma placa ao invés de depender de um mapa. Ou a maneira como ele pinta a Hong Kong dos anos 80 como um local violento para estrangeiros, além de ser um dos pouquíssimos jogos que trazem uma pequena — mesmo que distorcida — visão da cidade muralhada de Kowloon.

Shenmue

Combate não é o ponto forte de Shenmue I ou II

Assumo: eu sou apaixonado por detalhes que muitas vezes são “inúteis”, e a minha maior felicidade em Shenmue é saber que elementos assim estão presentes aos montes tanto no primeiro quanto no segundo jogo. O simples ato de abrir uma gaveta e achar uma fita cassete, rotacioná-la, e depois colocar para tocar, me enche de alegria. Em uma comparação esdrúxula – e possivelmente a primeira que você vai ver em um texto sobre Shenmue – é a mesma alegria que eu tenho quando eu descubro que posso apertar um botão de um trem em um simulador como o Train Simulator, ou dar descarga em um vaso sanitário em  Dishonored.

Por ser um jogo em vários aspectos muito à frente de seu próprio tempo, inventor de tantas mecânicas que outros jogos copiaram no futuro, torna-se difícil “encaixar” Shenmue em um gênero. Há momentos que penso em categorizá-lo como uma visual novel em 3D com elementos de ação; outra hora penso em chamá-lo de adventure, similar ao viés do point ‘n click, mas no qual você controla o seu personagem – quiçá até um turismo virtual por uma Ásia dos anos 80, coisa que só iríamos ver novamente em Yakuza 0.

Ao invés disso tudo prefiro defini-lo da seguinte forma: Você já notou que, quando tudo está bem ou você está em um local quieto, seja no topo de uma montanha, em uma rua deserta ao cair da noite, até mesmo na sua cama, o tempo parece andar mais lento? Ou quando você para de ficar afobado por causa de alguma preocupação que está fora do seu controle e compreende que é preciso ter paciência, aproveitar o momento e prestar maior atenção no que está ao seu redor? Pois bem, isso é Shenmue. Tem seus quase 20 anos, e não tem medo de mostrar isso. Não é para todos, e nunca vai ser.

Shenmue I & II

Total
Shenmue I & II não tarda em mostrar que não envelheceu tão bem, ainda mais no que tange ao campo das mecânicas. Não é feito para os impacientes, e é muito fácil de ser “odiado”, descartado, abandonado. Mas quem aprender a ter paciência - ou já for apaixonado pelo detalhismo exagerado - vai encontrar algo de especial no game de Yu Suzuki.
Bom

Análise – Shenmue I & II

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.