Análise – Port Royale 4

Sabe qual é o maior avanço que a Gaming Minds fez em Port Royale 4 (Steam / PlayStation 4 / Xbox One)? Usar a engine de Railway Empire para melhorar drasticamente os seus visuais. Sabe o que importa menos em um jogo cujo foco é logística e compra e venda de produtos no Caribe do Séc XVII? Isto mesmo, os seus visuais. 

Vira e mexe eu referencio o fato de que eu crio planilhas para descobrir como lucrar da maneira mais eficaz em jogos como Eve Online, Astrox Imperium, Capitalism 2, Anno 1800, dentre tantos. Eu tinha uma pequena planilha para Port Royale 3, que nem sei onde foi parar, mas eu não precisei de uma para Port Royale 4. 

Sendo a primeira vez que a série aparece nos consoles – não que isso seja um problema em si –, a Gaming Minds desenvolveu um sistema de compra e venda de produtos que só posso definir como raso. Port Royale 3 tinha lá os seus problemas, como micro gerenciamento de frotas e o uso de dois mapas, um para cada cidade e outro para o mapa mundi. Porém, uma das peculiaridades dele é como ele te incentiva a explorar para descobrir novas cidades e ter uma noção da oferta e demanda de cada uma delas. Parte desse elemento ainda está presente em Port Royale 4, mas foi diminuído para: encontre uma cidade e agora você terá um menu onde os preços e as demandas são ajustadas em tempo real. 

Eu comecei achando isso uma bela de uma melhoria — especialmente por ter todas as informações essenciais em uma única tela —, mas depois de cinco ou seis horas de jogo eu já estava entediado. A Gaming Minds não fez nada para compensar essa mudança absurda. Resultado? Um jogo de logística que você pode ter duas ou três rotas bem lucrativas (quando funcionam) em questão de minutos. 

Port Royale 4
O sistema de classes é mais uma ideia mal aproveitada de Port Royale 4

Digo isso se você optar por começar com uma das “classes” difíceis pré-definidas pelo jogo; se começar como mercador você sequer terá que pagar o custo de licença para comprar e vender produtos nas cidades. 

Reclinei na cadeira e pensei “não, isto não é possível. Deve ter algo faltando que eu não percebi nos tutoriais”. Estava certo! Eu posso alterar as minhas frotas para que elas peguem correntes de vento e reduzam ainda mais o tempo de viagem, sedimentando a certeza de que eu estaria mais rico do que nunca! Mas, o que fazer com tanto dinheiro? Ora, investir nas cidades, já que este era o elemento que menos tinha presença em Port Royale 2 e 3 e que, de acordo com a desenvolvedora, teve uma bela de uma revitalização. 

Essa revitalização não é nada mais do que mais formas de ganhar dinheiro. Construa bares para deixar sua população feliz, construa casas para incentivar o aumento da população – e por consequência o seu lucro na cidade. Esquece a ideia de taxa de manutenção ou similares, elas existem mas são facilmente cobertas pela minha montanha de dinheiro. 

Fora a meia dúzia de “quests” que pipocam por aí para “incentivar” a encontrar novos portos, o que eu já tinha feito desde o começo da partida, você vai gastar boa parte do tempo em Port Royale 4 torcendo para que algo significativo aconteça. Chegou em um ponto onde, depois de uma hora de partida, eu implorava para que o meu país (Espanha) entrasse em guerra com uma nação, ou eu fosse atacado por piratas. Ao menos era uma boa desculpa para aproveitar as batalhas em turno. 

Port Royale 4
Se acostume a olhar para essa tela por muitas horas.

Assim como o restante do jogo, elas não chegam a ser complexas e ainda retém a velha tradição de “que tem a maior quantidade de barcos vence” como principal vetor para a vitória. Mas a essa altura eu estava aceitando tudo para não dormir na cadeira. Ao menos é melhor do que o terrível combate de Port Royale 3.   

Para não dizer que o jogo não propõe desafios, eu comecei a sangrar dinheiro mais rápido que a desvalorização do Real em 2020. O motivo era nada mais nada menos do que as minhas frotas comprarem os recursos que estavam sendo produzidos em uma região e esquecerem de vendê-los em outra região. Qual a razão disso eu não sei, presumo que seja um bug, ou os deuses me ouviram e me deram alguma coisa para fazer. O que eu tenho certeza é que essa não era para ser uma ocorrência comum em Port Royale 4; tive que desfazer e refazer todas as minhas rotas de compra e venda para que os meus barcos voltassem a agir corretamente. Bom, talvez meus capitães tenham gostado demais das 50 poltronas que eu comprei. Quero muito saber onde eles vão enfiar 50 poltronas em um navio. 

Port Royale 4 está em uma situação muito parecida com a que vi em Romance of the Three Kingdoms XIV. Ainda que tenham temáticas bem distintas, a Gaming Mind e a Koei Tecmo trabalharam com jogos que a maioria das pessoas achou “complexo demais”, e ao invés de achar um meio termo, removeram o que os tornava especiais. O resultado é o mesmo: raso, sem sal e com um imenso potencial desperdiçado. 

Até mesmo Anno 1800 – que nem é tão focado na compra e venda de produtos e mais na manutenção de uma linha de produção – tem mecânicas mais interessantes do que Port Royale 4. Como isso é possível em 2020? Eu sinceramente não sei. 

Port Royale 4
Combate em turnos até tenta, mas não passa de “competente”.

O que me deixa mais chateado é que Port Royale 4 teve um longo período de beta no Steam onde a comunidade apontou grande parte desses problemas – da falha de compra de produtos até a facilidade de ficar rico. Para que então ter um beta se o feedback da comunidade não é levado em conta? Eu sei que a resposta disso é provavelmente “fazer dinheiro entrar em caixa para fechar o trimestre no lucro”, mas não deixa de ser um grande tapa na cara. 

Vindo de uma empresa como a Gaming Minds e uma editora (Kalypso Media) que demonstrou uma capacidade incrível com Railway Empire e melhorias significativas para Tropico 6, Port Royale 4 foi lançado cedo demais. Tenho uma pequena esperança de que os principais defeitos sejam resolvidos, mas mudar a sua estrutura a essa altura do campeonato é quase impossível. 

Não importa você ter uma interface amigável, visuais estonteantes, barcos que vão para lá e para cá de maneira “realista” quando a fundação do jogo é dilacerada para que isso ocorra. Sei que sou o ponto fora da curva, mas eu prefiro ter um jogo com uma interface mais difícil de aprender, mas recompensadora, do que ver Port Royale 4 ser reduzido a um mero jogo de traçar rotas. 

Ok, concordo que ao menos as cidades são bonitinhas.

Ainda é bizarro pensar que, depois de tantos anos, Port Royale 2 ainda retém a coroa como o melhor jogo da franquia. Ele tem lá as suas levas de problemas, é difícil de aprender e sua execução poderia ser melhor. Mas ao menos não destila a jogabilidade em algo tão monótono. 

Vocês que me perdoem, mas eu já gastei tempo demais jogando e escrevendo sobre Port Royale 4. O que eu quero mesmo é ancorar a minha embarcação, ver o que o futuro nos reserva, e cruzar os dedos para que ele tenha uma revitalização no mesmo patamar de Railway Empire. Enquanto isso, volto para os jogos anteriores da franquia ou gasto meu tempo com Anno 1800 – recomendo que faça o mesmo.

Port Royale 4

Total - 5

5

As mecânicas de Port Royale 4 são tão simplificadas que não conseguem prover nem um quarto do entretenimento dos jogos anteriores da série, e até games semo mesmo foco como Anno 1800 conseguem resultados melhores do que ele. Deixa o seu barquinho ancorado e torça para que a embarcação conduzida pela Gaming Minds encontre mares mais calmos nos próximos meses… ou afunde de vez.

Análise – Port Royale 4

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.