Pillars of Eternity

“Isso tem mesmo que acabar?”. Foi o que eu falei após muitas horas investidas em Pillars of Eternity, o novo RPG da Obsidian Entertainment que está à venda no Steam, no GOG e Nuuvem (no momento que essa análise foi publicada, ele se encontrava com um desconto de 15%, saindo por R$69,99).

Fazia muito, mas muito tempo que eu não me envolvia tanto em uma história, me divertia tanto no combate e explorava cenários tão belos em um RPG. Tivemos ótimos lançamentos como Divinity: Original Sin, Wasteland 2, Legends of Grimrock 2, mas nenhum no mesmo patamar de qualidade que em Pillars of Eternity.

A história começa com o seu personagem em uma viagem para Drywood, uma das regiões do grande Eora, lar de diferentes raças, conspirações e perigos. Após acontecimentos estranhos, você se torna um Watcher, nome dado aqueles que conseguem se comunicar com espíritos.

Sem entrar no território de spoilers, a campanha principal traz uma sensação de “aventura”. Você embarca em uma jornada por diversos locais, conhece pessoas interessantes e terá bastantes surpresas.

Parabenizo a Obsidian por em momento algum eu sentir que ela estava chata ou com trechos que me fizeram desistir. Cada uma das minhas sessões, que duravam mais de 12 horas, eu sempre queria mais, queria saber o que estava por trás de uma porta, qual era o próximo local a visitar, que personagem encontraria.

Isso sem contar as sidequests, também bem elaboradas. Está acostumado com aquelas quests onde você dever ir até tal lugar, pegar um item e voltar? Nada disso, cada quest tem uma história de fundo, diferentes maneiras de resolver um conflito e bem produzidas.

No geral tanto a quest como as sidequests me levaram de volta a época onde jogava Dungeons & Dragons de mesa, há muitos anos atrás. Há uma sensação de “Nossa, isso é sensacional” cada vez que eu conhecia uma nova área, encontrava um inimigo ainda não visto, etc.

Eu sou o tipo de pessoa que normalmente não expressa muita emoção enquanto joga, boa parte dos games não me fazem esboçar um sorriso, ou me deixar tenso. Em Pillars eu me via involuntariamente me aproximar da tela para prestar atenção no que acontecia, ria dos diálogos e ficava nervoso antes de descobrir qual era o próximo passo a ser dado para avançar na história.

A história não escapa de alguns estereótipos do gênero, mas ao mesmo tempo oferece personalidade o suficiente para que se mostre como algo “novo”. Chega daquela sensação de “mais um RPG medieval, que saco”, comecem a olhar para Pillars of Eternity e outros lançamentos recentes como uma base para criar mundos interessantes.

Pillars of EternityObservação: Não cheguei a completar todas as sidequests de Pillars of Eternity, apenas a Quest principal, o conteúdo é muito grande, assustadoramente extenso e irá tomar boa parte do seu mês para desfrutá-lo completamente.

Pillars of Eternity é um RPG para uma nova geração, uma geração que não teve tanto contato com os clássicos, mas sem perder a complexidade. O sistema usado para a criação do personagem é mais direto.

Ao invés de se preocupar em estabelecer pontos para cada personagem, alguns stats são gerais, como o Might. Este, governa o dano causado por todo tipo de ataque, seja ele físico ou magia. Assim como a defesa é baseada no Damage Reduction e resistências contra elementos de cada personagem. Penou para aprender thac0? Não será preciso dessa vez.

Muita gente acha a experiência de criar o seu próprio personagem algo mágico, especial e demoram horas nisso. Atualmente acho insuportavelmente chato, tedioso e as vezes eu quero apenas saber quais habilidades pegar e não me preocupar tanto com stats de cara. Pillars permitiu que eu fizesse um personagem que já tinha em mente rapidamente sem ter de perder horas imaginando se ele estava “forte” ou montado “da maneira certa”.

Aqueles que gostam disso, não se preocupem, existem milhares de variações de uma classe e com certeza você encontrará alguma que se adaptará ao estilo de jogo.

Os que investem bastante tempo em roleplay ficarão felizes em saber que você pode definir a origem do personagem. A região na qual ele nasceu oferece bonus em certas habilidades e podem influenciar a respostas de certas conversas.

O personagem que eu escolhi para a minha aventura era benevolente, ajudava a todos, exceto um momento onde eu levantei uma criança e a ameacei. Os outros personagens que estavam comigo não gostaram muito da reação. Das classes testadas, a mais interessante de longe foi o Druida com sua habilidade de se transformar em animais, aplicar curas ou usar os elementos para causar dano.

Outra novidade muito bem vinda é o sistema de Stash. Ao invés de deixar itens espalhados no cenário caso os personagens não consigam carregar mais, eles são enviados para um baú, acessível diretamente da tela de inventário.Pillars of Eternity

É uma solução simples e que não prejudica em nada o “realismo”. Se tem algo que detesto é ter de ficar gerenciando equipamento / itens em RPGs. A Obsidian torna isso secundário e faz com que você se foque no que importa, a história.

Fora isso, é o RPG mais tradicional o possível. Explore as cidades, converse com NPCs, receba quests, complete-as. Pode se preparar para ler bastante, pois é facilmente um dos games com a maior quantidade de texto que já vi. Em momento algum outro conseguiu preencher a minha tela inteira com linhas e mais linhas de texto. Em Pillars of Eternity? É a coisa mais normal que ocorrerá

A ótima narrativa da Obsidian, vista em outros games como Knights of The Old Republic 2, aparece novamente para garantir que essas montanhas de texto fossem interessantes de se ler. O tempo que gastei no combate foi possivelmente equivalente ao tempo que eu gastei na leitura de textos, pequenos livros, descrição de itens e histórias espalhadas pelo cenário.

Vale apontar que eu normalmente tenho aversão a essas coisas. Se eu já li um livro em Skyrim? Neverwinter Nights? Jamais, todos pareciam cansativos, não me prendiam e eu não me importava o suficiente para ler. Dessa vez eu tinha a necessidade, eu queria saber mais sobre o mundo, seus habitantes, crenças, guerras do passado, costumes e por aí vai. A Obsidian conseguiu criar um mundo “realista”, interessante e divertido de explorar. Não poderia ficar mais feliz com isso.

O combate em Pillars of Eternity é completamente influenciado por clássicos como Baldur’s Gate, Icewind Dale, dentre outros. Ou seja, um combate tático onde as ações são executadas em tempo real mas você pode parar a qualquer instante para determinar quais são as habilidades que deverão ser usadas a seguir.

Cada personagem tem uma barra de “turno”, com sua duração definida de acordo com a armadura ou outros equipamentos que a podem tornar mais curta ou mais longa. O conceito é fácil de entender para quem não está acostumado com o gênero.

Assim como influenciado, o sistema volta com os mesmos problemas de antigamente. Gerenciar um grupo de seis personagens com outros inimigos em volta continua uma tarefa desnecessariamente complicada. A quantidade de micro gerenciamento é alta e muitas vezes o combate pode se tornar confuso.

Imagine entrar em combate com outros três magos, enquanto o mago e o druida do seu grupo usam magias sem parar. A tela fica lotada de efeitos e se você não prestar bastante atenção irá se dar mal.

Eu nunca fui um grande fã do sistema aplicado em Baldur’s Gate, sempre preferi mecânicas de combate por turnos, apesar de saber que muitas pessoas a consideram chato demais e lento. Na medida do possível Pillars tenta oferecer o máximo de clareza para entender o que diabos ocorre na tela graças a uma interface mais limpa e bem organizada.

Seja você veterano ou não nesses sistemas, pode preparar os botões de quicksave e quickload. A medida que a história progride, Pillars of Eternity não deixa as coisas fáceis. Um descuido e toda a estratégia para um combate pode ir por agua abaixo. É preciso saber posicionar cada personagem, tirar o máximo de proveito da situação e entender as habilidades do inimigo.

Entre quests, cavernas, templos a serem explorados, você deverá cuidar do Stronghold, o castelo de Caed Nua que é entregue as seus cuidados em certo ponto da história.

Nele você pode reformar edificações, ganhando prestígio, aumentando bônus em dinheiro e a segurança do mesmo. De tempos tem tempos inimigos irão tentar saqueá-lo. É possível resolver isso com a ajuda da IA ou você mesmo partir para a batalha. Além disso o Stronghold lhe oferecerá bônus nos stats e algumas novidades que não vou revelar para não estragar a surpresa.

Dentro dele você também encontra a Endless Paths of Od Nua, uma dificílima dungeon de 15 andares. Apesar de disponibilizada cerca de 12 horas após começar o jogo, só consegui terminá-la com mais de 40 horas. Foram algumas das batalhas mais desafiadoras do jogo.

Com o uso de cenários pré-renderizados e personagens em 3D, a arte de Pillars of Eternity é belíssima, mas não imune de problemas. Nas cidades é possível que verá uma queda na taxa de quadros devido a um grande número de personagens na tela. O mesmo ocorreu durante alguns combates ao longo da história. Não vou especular as causas, mas não chegou a fazer com que o jogo ficasse impraticável.

Pillars of Eternity

As telas de loading também são constantes, mesmo ao sair ou entrar em uma edificação. Boa parte delas não chega a incomodar, já que duram menos do que 15 segundos.

Tirando isso, vi apenas problemas no pathfinding dos personagens. Eu apontava para que ele se movesse para o local X e as vezes ele decidia dar uma volta muito maior do que era preciso. Isso também ocorre com frequência no combate, a ponto de ver um dos inimigos dar voltas em círculos por que não conseguia calcular o caminho que deveria seguir. Novamente, não prejudica a experiência, mas deixar passar é um pouco demais.

Os problemas foram esquecidos a cada momento que eu entrava em uma área nova, ficava sem ar com a beleza do local, a trilha sonora me envolvia e acabava por passar mais tempo observando os detalhes da cena do que me preocupando se a taxa de quadros estava baixa. Para aqueles que ainda tem um pouco de receio dado o histórico da Obsidian de lançar jogos “bugados”, esqueça, é super polido e nas mais de 60 horas de jogo não vi um bug.

Se fosse fazer hoje uma lista com os meus RPGs favoritos, Pillars of Eternity desbancaria muitos e entraria entre os dez melhores. É um trabalho sensacional da Obsidian, repleto de personalidade e com conteúdo de sobra. A única coisa que eu desejo agora é mais, mais quests, itens, armas, locais a serem explorados. Nunca imaginei que falaria isso, mas as 60 horas não foram o suficiente. Agora faça um favor a si mesmo se for fã de um RPG, jogue-o.

A análise foi feita com base em uma cópia enviada pela Paradox

Análise – Pillars of Eternity, um RPG para ficar na história

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.