Análise – Mighty Goose

Eu não tendo a  ter problema algum com “homenagens”. Estou um pouco cansado delas? Devo dizer que sim, mas se há um “subgênero” que tem sido mal representado nos últimos anos é o de jogos similares a Metal Slug. Eu não imaginaria que isso viria de uma paródia sobre um ganso com Mighty Goose (Steam / PlayStation 4 / Xbox / Nintendo Switch)

Desenvolvido pela Blastmode a primeira vez que eu vi o trailer pensei: “Ah, que fofinho, um ganso mercenário que destrói tudo pela frente”. Assim que coloquei as minhas mãos no jogo eu notei o quão mais complexo e interessante ele consegue ser.

Se você nunca jogou Metal Slug – afinal, é uma série relativamente antiga e a última versão (Metal Slug XX) deu as caras apenas em 2009 e sequer tinha a equipe original no comando – pense da seguinte forma: um run ‘n gun shooter onde tudo e todos pretendem te matar da pior maneira possível. É de longe uma das minhas séries favoritas nesse estilo pela estética da SNK, a variedade de cenários, inimigos e chefões. É o tipo de jogo que você pega e ou você aprende a jogar na “marra” ou você sofre na primeira fase.

A meu ver o grande desafio de “homenagear” Metal Slug é acertar o ritmo e a temática. Onde vejo Blazing Chrome como o próximo Contra (ao contrário de qualquer tentativa feita pela Konami nos últimos anos), Mighty Goose usa uma aproximação mais acessível para todo tipo de jogador.

Ao mesmo tempo em que ele “perdoa” mais, adotando checkpoints mais “amigáveis” e um menor grau de dificuldade – ao menos na campanha base – ele oferece uma série de estilos de jogo com upgrades e melhorias temporárias que muitos jogos do estilo não ousaram colocar, com medo de diminuir a “pureza” dessa homenagem.

Os estágios em si continuam tão caóticos quanto os de Metal Slug, com inimigos vindo a torto e a direito, dezenas de granadas sendo jogadas contra você, mas ao mesmo tempo você tem uma maior quantidade de frames de invencibilidade para quem não está acostumado com o estilo.

Mighty Goose
Se você achou essa imagem caótica, você não sabe o que te espera.

Eu já estou nos meus 30 e poucos anos e, por mais que ame Metal Slug e ainda jogue-o ocasionalmente (ainda mais o 3 que é um dos meus favoritos), eu às vezes não tenho paciência de completar com o mínimo de créditos possível ou sequer estou no estado mental para enfrentar os desafios. Mighty Goose, ao contrário, é um baita de um “pick up and play”. Morreu uma vez ou duas? Não tem problema, tem um delicioso checkpoint no meio da partida para você não se preocupar de ter de começar do zero.

Isso é um incrível avanço em termos de acessibilidade, como já mencionei, como também uma porta de entrada para o estilo para muitas pessoas que não cresceram com esse subgênero, seja nos arcades ou nos seus respectivos ports para PC ou consoles da geração anterior ou geração atual.

Além do que, é um jogo delicioso de jogar. É perceptível o carinho do (inserir desenvolvedor) em recriar alguns inimigos mais icônicos de Metal Slug, além de replicar alguns de seus ataques para que tanto veteranos quanto novatos sejam motivados a aprender os seus padrões e eventualmente aprender a desviar deles.

Pegue por exemplo o inimigo base de Mighty Goose, um soldado que taca granadas, a mesma técnica usada em Metal Slug. Todavia, onde Metal Slug é impiedoso nesta frente, Mighty Goose te dá as ferramentas para você desviar ou até mesmo eliminar as granadas no ar.

Sistema de powerups definitivos muda e muito o seu estilo e ajudam a completar mapas mais rápido.

Quanto mais eu jogava Mighty Goose, mais eu queria experimentar com as suas combinações – que aparecem na forma de powerups permanentes na sua “armory”. Alguns aumentam a quantidade de frames de invencibilidade, outros aumentam a velocidade do ganso, outros trazem companheiros que te dão granadas ou metralhadoras. Ou, se você quiser um pouco mais de desafio, um carismático pato que solta um ovo granada e sempre abre um sorriso na minha cara. Todos esses itens podem ser testados em uma área de treinamento, que a meu ver deveria ser essencial para jogos com um grau de dificuldade relativamente alto; agradeço ao (inserir desenvolvedor) por ter adicionado tal área e também por entender que alguns de nós gostam de treinar antes de enfrentar um chefão.

Pois, mais que eu não queria negar, um dos principais atrativos de Mighty Goose é o quão próximo o (inserir desenvolvedor) foi capaz de criar chefões não só com uma identidade própria, mas ao mesmo tempo seguindo os mesmos estilos e até mesmo algumas batidas de Metal Slug.

Assim que você chega em um dos chefões você já sabe “Agora ferrou”. E ferrou mesmo, meus caros e minhas caras. Aqui Mighty Goose não mede esforços para colocar toda a sua experiência à prova. Se você não aprendeu a esquivar de granadas, vai ter que aprender na “marra”. Mas, ainda assim, por mais doloroso que soe, o sistema é bem menos punitivo do que os de outros jogos do estilo.

Isso sem entrar em detalhes na incrível arte feita pelo desenvolvedor, ao menos no que diz respeito ao design dos chefões e dos inimigos. Embora eu esperasse um pouco mais de variedade nos inimigos – especialmente nas fases mais avançadas – acredito que esta tenha sido uma decisão de design para não sobrecarregar o jogador de inimigos com diferentes padrões de ataque.

Mighty Goose
Fase com tanques e aviões são obrigatórias e Might Goose às tem aos montes

Mas nem tudo são flores em Migthy Goose. A Blastmode foi um pouquinho exagerada nos efeitos visuais, o que faz com que certos mapas fiquem visualmente poluídos por partículas de forma que você acaba por não entender se você está disparando no inimigo, se a explosão foi causada por um dano seu ou do seu oponente, e alguns zooms “dramáticos” tiram um pouco sua atenção. Tais “problemas” estão sendo resolvidos na atualização 1.2, que já está em testes no momento em que esta crítica está sendo escrita.

“Mas e aqueles que amam Metal Slug? Isso soa um tanto fácil para nós”. Não se preocupe; Mighty Goose pode trazer esse todo grau de acessibilidade, mas para veteranos para nós a verdadeira diversão está no New Game+. A melhor dica que eu posso te dar em relação a essas fases é: prepare-se para apanhar. Pois você vai apanhar, muito, mas muito mesmo.

Para comparação, eu devo ter completado a campanha original em no máximo 3 a 4 horas, enquanto o New Game+ no mínimo dobrou o meu tempo de jogo, tamanho o aumento na dificuldade e os diferentes ataques dos chefões. Não nego que quando eu cheguei nessa parte do jogo eu soltei um “Ah, aqui está a experiência de Metal Slug que eu tanto queria!”.

Morra, morra, morra, morra mais um pouco, e enfim saia vitorioso. Ah, como é gostoso ter essa sensação de volta. E isso é só a ponta do iceberg. Mighty Goose ainda tem todo um sistema de pontuação que leva em conta a quantidade de vezes que você morreu em uma partida, a velocidade que você completou uma fase e o combo máximo que você obteve. Tirar um “S” em uma fase do New Game+ é coisa de arrancar o cabelo, tamanha a dificuldade. Mas não seria uma homenagem a “Metal Slug” se não tivesse isso, correto?

Mighty Goose
Chefões são o ponto forte de Mighty Goose

Se fosse para colocar uma única “grande” crítica em relação a Migthy Goose, essa seria a simplicidade de algumas fases. Não existem caminhos secundários, tampouco segredos. Mas isso é uma pequena gota em um gigantesco oceano. Não dá para comparar o trabalho incrível da SNK com o de uma desenvolvedora pequena, e tendo em vista o quanto a última alcançou em termos de qualidade, eu prefiro que o jogo seja bastante linear do que ter duas ou três áreas adicionais “feitas às pressas”.

Seja você um veterano de Metal Slug ou não, Migthy Goose pode muito bem ser a sua porta de entrada para a franquia e tantos outros run ‘n gun shooters que existem por aí – dos clássicos ao mais modernizados. E Mighty Goose é sem sombra de dúvidas o com mais “sensibilidades modernas”, e reforça a ideia de que jogar é para todos. E, sim, jogar é para todos. Independentemente da sua habilidade e conhecimento prévio de uma série ou subgênero. Quem dera outros desenvolvedores entendessem esse ethos.

Agora, com a sua licença, eu ainda tenho umas duas fases para completar no modo New Game+ e tentar a duro custo tentar tirar um “S” nelas.

*HONK*

Mighty Goose

Total - 8.5

8.5

Equilibrado tanto para novatos quanto veteranos, Mighty Goose é um exímio exemplo que você pode homenagear Metal Slug e ainda assim oferecer diferentes estilos para cada jogador. A carência de rotas secundárias e poluição visual – algo que está sendo trabalhado pela Blastmode pode deixar você um pouco confuso, mas persevere e você terá um ótimo jogo nas suas mãos.

Análise – Mighty Goose

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.