Análise – Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning

Para 2012, Kingdoms of Amalur: Reckoning era um impressionante feito dentro dos jogos mais voltados para um público abrangente. Um sistema que permitia misturar diferentes elementos de classes, um mundo aberto imenso para ser explorado, e uma história que — apesar de batida — cumpria o seu papel. Não há como dizer o mesmo de Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning (Steam, PlayStation 4, Xbox One, GOG); o tempo foi cruel com alguns de seus aspectos. Mas talvez a maior crueldade foi o que a THQ Nordic e a Kaiko chamam de remaster.

Meu primeiro contato com o jogo lá por volta de 2012 foi bem positivo; todos me falavam o quão “incrível” era o jogo, como haviam “inúmeras quests para serem completadas”, ou o “agradável combate”. É de fato impressionante tanto para a época quanto para os dias atuais, era um gostinho do que – para o bem ou para o mal – seria uma marca registrada da atual geração de consoles e consequentemente do mercado de PC.

Jogando o remaster, sinto que Kingdoms of Amalur – em comparação com o que temos hoje em dia – é um dos poucos jogos que conseguiu acertar o equilíbrio entre side quests agradáveis, mini-tarefas, e uma quest base. Feitos que tendo a restringir para jogos como The Witcher 3. Quer um bom exemplo? Olhe para Dragon Age: Inquisition, o tal “jogo do ano” de 2014, um “prêmio” que posso te garantir que não foi dado por conta das áreas exploráveis ou pelas suas sidequests retiradas de um livro de receitas para MMOs.

Em tempos áureos, onde eu tivesse mais tempo e paciência para investir em todas as side quests disponíveis em Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning, ele entraria fácil para a minha lista de “comfort games” — aqueles jogos que você joga quando quer desligar o cérebro, eliminar uns inimigos e completar umas quests. Porém, outro empecilho que faz que ele não entre nessa lista é o já mencionado patético esforço da Kaiko e da THQ Nordic em trazer o jogo para uma nova audiência.

Direto de 2012 para o seu PC, PlayStation 4 ou Xbox One, sem uma mudança no menu.

Já não tinha expectativas que Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning reinventasse o conceito high fantasy de “oh meu deus você é o escolhido, aqui está uma lista de coisas importantes que você precisa fazer para parar o mal”, não é o trabalho dele. Torcia que ao menos seria um jogo com um combate mais fluido, uma dificuldade mais equilibrada e um drop de itens mais coeso.

Para quem não acompanhou o drama de 2012, o lançamento original de Kingdoms of Amalur: Reckoning não é o que eu chamo de catastrófico, mas era um jogo recheado de pequenos defeitos: era fácil demais você tornar o seu personagem poderoso demais já nas primeiras horas de jogo, o desempenho das versões consoles deixava a desejar, e os itens obtidos em quests / baús nem sempre condiziam com a árvore de habilidades que você estava evoluindo. A maioria desses problemas foi originada de um possível péssimo ambiente de trabalho, gerenciamento e mudanças bruscas no projeto pelas suas desenvolvedoras originais — Big Huge Games e 38 Studios.

Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning corrige a maioria deles; o combate está mais fluido, ficar poderoso no começo do jogo agora é impossível, e as texturas foram “melhoradas”. Quero dizer, agora o jogo passa a ocupar quase 40GB do seu disco rígido ao invés dos 16GB do jogo original e você precisa de uma lupa para notar a diferença. Isso é ótimo para quem planeja jogar um RPG de 2012 no PlayStation 4 ou Xbox One, mas essa já era a minha experiência com Kingdoms of Amalur por anos.

Meses depois do seu lançamento, uma pequena — porém dedicada — comunidade de fãs tentou consertar o terrível balanceamento do jogo, melhorar o combate, dar acesso a novas ferramentas que permitiam a edição de itens e armamentos, e até criaram uma “framework” para facilitar a integração com o jogo base. Isto não é uma história que aconteceu por um tempo e acabou. Após os fechamentos dos fóruns da EA, a comunidade migrou para o Nexus Mods e até hoje cuida dos mods de Kingdoms of Amalur, ao ponto que a última grande atualização foi lançada em maio de 2020.

Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning
Mudanças no loot e modo “Very Hard” são as mudanças mais cruciais. Parte delas você consegue com o jogo original + mods.

Eu não quero diminuir o esforço da Kaiko aqui, afinal a empresa também levou Re-Reckoning para o PlayStation 4 e Xbox One e adicionou uma dificuldade “Very Hard” que melhor se traduz em “inimigos com pontos de vida demais e batalhas curtas viram um confronto de atrito”. Eu gosto da ideia pois me fez apreciar ainda mais o sistema de combos de Kingdoms of Amalur e me fez repensar como construir o personagem.

Mas o outro lado de mim sente asco em ver o trabalho de uma comunidade apagado, enfiado em um remaster sem receber o menor crédito. O maior agradecimento sendo “modders no PC poderão ter acesso a mais tabelas e itens para serem modificados”. Você criou um remaster ou uma framework para terceirizados não pagos corrigirem o seu jogo? Pois, se for ao menos contar com a versão de PC – usada para essa análise – eles vão ter um trabalho e tanto pela frente.

As minhas vinte e tantas horas com Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning foram recheadas de bugs e problemas técnicos que não tinha visto acontecer no original. Tendo a não mencionar tais fatos pois na maioria dos casos são pequenos e pouco afetam o jogo. Re-Reckoning é uma exceção pela quantidade de áreas que deixavam de ser carregadas, personagens presos entre paredes, loot que era impossível de pegar, habilidades que não estavam sendo ativadas e itens que desapareciam do inventário.

“Nossa, o original é tão ruim assim? Eu não me lembro de ter visto um terço desses bugs nele”. Por ainda tê-lo no meu computador — agora que ele foi deslistado de qualquer loja oficial — até voltei para conferir se minha memória estava ruim ou a pandemia de 2020 estava me enlouquecendo. Nada, nadinha, nem um mínimo bug. No máximo dificuldades em ajustar a resolução do meu monitor já que o mesmo é ultrawide. Adivinha? Também há um mod para isso que faz um trabalho melhor que a implementação da Kaiko em Re-Reckoning, que foca demais nos olhos dos personagens e faz parecer que todo diálogo é um duelo de Spaghetti western.

Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning

Respirei aliviado em ainda ter o original, ele está aqui para quando eu quiser revisitá-lo. Mas é difícil não sentir uma imensa frustração de bater na mesma tecla por anos a fio sobre a dificuldade de preservação digital e ver empresas como a THQ Nordic tornarem isso ainda mais difícil. Desculpe o termo, mas se for para me vender bosta agora com um cheiro diferente, eu prefiro continuar com a bosta original.

Existem empresas que estão preocupadas com preservação digital; vide a Night Dive Studios que oferece múltiplas versões de seus jogos clássicos dentro do mesmo pacote, de versões originais lançadas para DOS até versões beta que até então não tinham sido apresentadas para o público. Mas essas empresas são a exceção ao invés da regra. Eu não vou ficar quieto enquanto isso não começar a se tornar regra.

No fim das contas, quem vai jogar Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning? Eu não consigo imaginar ninguém, fora os entusiastas do original, ou aqueles que possuíam o jogo no Xbox 360 / PlayStation 3. Por que então fazer um remaster tão patético? A THQ Nordic estava construindo um excelente legado de remasters e remakes com Spongebob e Destroy all Humans para chutar o balde com Re-Reckoning? Não faz o menor sentido na minha cabeça.

Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning
Bem, ao menos as armaduras devem ficar bonitas em 4K ou 8K.

Como um crítico e alguém que se preocupa demais com preservação digital, eu não consigo em boa consciência recomendar Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning para quem jogou o original. Não é o meu lugar de impedir alguém de comprar por nostalgia ou por interesse em revisitar um clássico da adolescência / infância / juventude / seja lá qual foi a idade que você o jogou, mas ao menos saiba que o que você está fazendo é alimentar uma indústria que apaga a história, a contribuição de uma comunidade, e a reescreve para que ganhe todos os louros.

Kingdoms of Amalur só pode ser uma franquia amaldiçoada. Quando não é entregue de maneira apressada, tem seu potencial roubado mais uma vez por uma série de decisões ridículas, uma versão repleta de bugs e que vai ser mais uma vez esquecida pela história, uma história que a sua própria publisher tentou reescrever. A única coisa que eu desejo para a THQ Nordic e a Kaiko é: boa sorte na expansão prevista para 2021, pois vai precisar de muito estímulo para eu jogar o tal remaster de Kingdoms of Amalur de novo.

A análise foi feita com base em um código PC enviado pela publisher.

Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning

Total - 4

4

Salvo a adição de um nível de dificuldade extra e refinamentos no combate, Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning é um remaster que tem cara de ter sido construído nas costas dos esforços de uma pequena e dedicada comunidade. O que você mais vai ganhar com essa versão — ao menos no que diz respeito a versão PC — é uma bela coletânea de bugs e dores de cabeça. Se você por acaso ainda tem o original, abrace-o e guarde com carinho, pois vai ser praticamente impossível encontrá-lo à venda daqui para frente.

Análise – Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.