Análise – Far Cry Primal

Separar todos os componentes de jogabilidade de Far Cry, ou qualquer jogo recente da Ubisoft é mostrar que eles seguem uma fórmula muito bem estabelecida. Vá ali, elimine alguns inimigos, crie itens. Tudo isso está em Far Cry Primal, porém a maneira a qual ele usa disso é que é realmente animadora. Ele está disponível para Xbox One, PlayStation 4 e PC a partir de R$ 129,99.

Far Cry Primal começa em 10 mil antes de Cristo, onde o Jovem. Pera, seria jovem, adulto? Eu não sei bem a idade, Takkar vai em uma caça a mamutes. O caçador é um Wenja, uma das tribos que supostamente se instauraram na europa central do período. Com o tempo os Wenja perderam territórios para os Udam, uma segunda tribo canibal e os Izila. E, bem, parou por aí. Foi mais ou menos o ponto que eu perdi o fio da meada e meu cérebro desligou em relação a história.

As missões primárias, como sempre a maneira tradicional de avançar pelo mapa de Far Cry são algumas das mais genéricas e desinteressantes da franquia. No início servem apenas como ferramentas para instruir o jogador a algumas de suas mecânicas mais peculiares, como o controle de animais. De resto, era muito esforço para não apertar o botão de “pular” cutscene.

Sim, eu acredito que nessa altura você já está pensando que é mais um “daqueles jogos da Ubisoft”, mas calma aí, Far Cry Primal consegue ser ao mesmo tempo o mais desinteressante e o segundo mais divertido da franquia. Por mais que não tenha um vilão principal, como os dois últimos, essa descentralização da história combinada com a mudança de cenário para o período pré-histórico dá uma reanimada muito boa na franquia. Há menos variedade? Sim, porém as mecânicas são mais condizentes, requerem maior criatividade do jogador, e o mundo mais interessante de visitar.

Apesar do crafting permanecer um dos fortes componentes para aprimorar o equipamento, o elemento combina perfeito com o período pré-histórico. Pegue algumas madeiras, umas pedras, faça flechas. Quer uma bolsa maior de arcos? Junte peles específicas de um animal. No final do dia isso ainda cansa um pouco, mas é aí que a ambientação vem com tudo e te dá aquela animada.

Far Cry Primal

Dentre todos os Far Cry até então, Primal é o que tem o mapa mais interessante de explorado. Kyrat parecia mais uma mistura de montanhas com outposts separados e uma checklist gigante para fazer. Em Primal as formações rochosas criam um terreno acidentado, mais complexo mecanicamente de se movimentar, que requerem atenção do jogador.

O contraste entre o dia e a noite também é outra grande novidade em Far Cry Primal. Ele deixa de ser uma mera passagem de tempo para transformar o mapa em um local mais perigoso. Entre o uivado de lobos e os barulhos dos pequenos insetos da floresta, me tive de fugir de tigres dente-de-sabre, uma matilha de lobos e vi homens canibais em chamas ao tentar lutarem com alguns dos membros de minha tribo. Quando a noite caía, era hora de usar uma aproximação mais furtiva aos objetivos, que para minha surpresa, funcionava.

Os outposts — locais controlados pelas tribos adversárias — mudam de nome, mas não de objetivo. Onde havíamos construções elaboradas, Primal as recria como simples aldeias que devem ter todos seus inimigos eliminados. É aí que entra a segunda maior novidade de Primal, o sistema de pets. Adquirido no início do jogo, o jogador pode domar e executar ações em conjunto com outros animais. A principal ferramenta, sendo a coruja, uma maneira infinitamente mais eficaz de entender o posicionamento do inimigo e atacá-lo.

Em certo outpost, me escondi detrás de alguns arbustos com meu arco em punho, enquanto dei uma rápida vasculhada pelo cenário com a minha coruja, decidi que a melhor linha de ataque seria usar o meu lobo — um dos pets disponíveis — para atacar um dos oponentes enquanto eu dava cabo do outro e sem alertar o resto. Funcionou e foi um momento de pura adrenalina. São esses pequenos momentos que fazem Far Cry Primal algo mais grandioso do que imaginava. Restringir ações fez com que eu investisse mais criatividade de minha parte.

Muitas vezes jogar um jogo de mundo aberto da Ubisoft é como comprar uma carne no supermercado sem dar aquela checada primeiro. Quando chega a hora de limpar, você tem que tirar aquela camada de gordura desnecessária para chegar no conteúdo de verdade. Tudo bem, alguns preferem essa camada, mas eu não sou um desses. Com Far Cry Primal ela consegui tirar uma leve fatia disso e não prejudicou em nada a experiência.

Far Cry Primal

Os colecionáveis estão menos absurdos, não existem lojas — apesar que um sistema de gerenciamento de vilarejo foi adicionado — e alguns dos desafios desnecessários foram extinguidos. Novamente aquele mundo me chamava e saber que não tinha de lidar com alguns dos aspectos mais desagradáveis o tornavam ainda mais tentador.

Claro que é tudo muito simplório, o combate carece um refinamento, pode se tornar repetitivo se não variar muito de tática e as animações são reusadas muitas vezes. É um ponto que chega a prejudicar? De forma alguma, pois era justamente o que eu esperava de Far Cry Primal.

Uma coisa é certa, a UbiSoft acertou em cheio em praticamente todos os aspectos técnicos nos consoles. A versão de Xbox One, usada para essa análise, não era apenas impressionantemente bonita, como uma taxa de quadros fixa em 30 a torna suave como seda.

Ao levar em consideração a densidade do mundo em comparação com Kyrat e os tempos de carregamento absurdamente rápidos, é um feito de bater palma em pé. Novamente o efeito de Assassin’s Creed Unity parece ter batido pesado na desenvolvedora, com o terceiro título mais polido que já vi nos últimos anos, sendo Syndicate e The Crew: Wild Run os antecessores.

Far Cry Primal não foge da fórmula, na realidade adiciona nuances interessantes para engajar o jogador e fazê-lo interagir com suas mecânicas. É um mundo belíssimo a ser explorado, que carece apenas de uma história melhor que o acompanhe. Não irá trazer novos fãs, mas ao menos não vai decepcionar os atuais. Se a jornada é mais importante do que o final, Far Cry Primal é um dos games para você.

A análise foi feita com base em uma cópia para Xbox One enviada pela Ubisoft

Far Cry Primal

Total - 7.5

7.5

Com pequenas mudanças e inteligentes restrições na jogabilidade, Far Cry Primal consegue incentivar o jogador a ser criativo com o mundo que o é apresentado. Sua jogabilidade é interessante e muito do que era desnecessário para a franquia foi removido. Faltou apenas uma história mais interessante.

Análise – Far Cry Primal

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.