Análise – F1 2018

Acredito que existam dois grupos primários de fãs de F1 2018 (Steam / PlayStation 4 / Xbox One): aqueles que jogarão com o controle e algumas assistências, e os entusiastas com seus volantes, sem assistências, jogando partidas com duração completa. Fazer parte de um desses grupos irá moldar, muito mais do que nos anos anteriores, como vai ser a experiência de jogar o novo game da Codemasters.

Seguindo o caminho de F1 2017, a sequência adentra ainda mais na fase que chamo de “modo de manutenção”, quando se trata de jogos esportivos lançados anualmente. Avanços nas mecânicas tornam-se menos aparentes; não existe nenhum modo de jogo que vai te deixar boquiaberto, e os visuais — salvo obviamente os terríveis carros e os “halos” tornados obrigatórios pela FIA — permanecem praticamente iguais. Agora, se você olhar debaixo do capô, vai entender o porquê de F1 2018 levar a franquia para horizontes ainda mais promissores.

Uma das mais relevantes adições — se não a mais relevante — é o sistema de ERS. O Energy Recovery System está presente desde 2011 na F1, e é um sistema que converte a energia “perdida” durante a frenagem em energia elétrica que é então armazenada em um gerador, podendo ser ativado pelo jogador para um “boost” de potência. Se você jogou Project Cars 2, possivelmente já viu um sistema de KERS nos carros LMP1 ou híbridos. A diferença aqui é que, enquanto o jogo da Slightly Mad Studios faz isso automaticamente para você, F1 2018 deixa você escolher. Isto é, se você jogar com algumas assistências desativadas. A configuração do sistema ERS padrão é “automática”, e, a não ser que você altere para manual, não há como definir qual o modo desejado.

Chame-me de burro, mas eu devo ter passado uma pequena parcela do modo carreira batendo a cabeça para entender por que eu não conseguia alterar o modo de ERS e por que as minhas voltas eram tão erráticas. Isso é o que acontece quando você deixa a IA tomar as decisões para você. Primeiro por ela ativar o modo ERS quando não era necessário, outras vezes por simplesmente não ativar de jeito algum. Minha corrida no GP da Austrália — uma pista com excelentes retas — sequer usou o ERS, por motivos até então desconhecidos por mim.

F1 2018

Essencialmente o que o ERS faz é adicionar uma nova camada de tática para as corridas, que – ao ser colocada junto com a necessidade de gerenciar a mistura do combustível e o desgaste dos pneus – me fez repensar diversas vezes quando e como eu faria o pit stop. Duas paradas? Tentar armazenar combustível suficiente e torcer para a segunda metade da corrida não ser um desastre? Decisões importantes que precisam ser pensadas e repensadas a cada volta, mas que não foram consideradas apropriadamente por conta – novamente – das opções padrão de dificuldade de F1 2018.

Não é de hoje que a IA da franquia F1 falha em tomar as melhores decisões para o jogador, mas a edição deste ano está assustadoramente passiva em todos os aspectos. Joga no automático? Então pode se preparar para ver o jogo decidindo te deixar preso em uma marcha com a rotação baixíssima, sendo que você poderia arrancar de uma curva com muito mais facilidade com uma rotação maior (se você não se importar em gastar um pouco mais dos componentes do seu carro). O mesmo se aplica para os próprios pilotos, que são especialistas em bloquear a sua ultrapassagem, porém péssimos na hora de ultrapassar você. Não parece o Raikkonen atrás do volante, mas sim um daqueles motoristas que andam a 40km/h em uma pista que permite até 80km/h no meio da madrugada.

Agora, assim que você remove completamente as assistências, desativa os sistemas de tração, altera o ERS para modo manual, seleciona corridas completas — incluindo treinos e qualificação – e coloca a IA em qualquer coisa acima de “difícil”, aí sim F1 2018 finalmente diz ao que veio.

Uma das promessas da Codemasters era a influência da temperatura da carcaça do pneu na pilotagem, o que honestamente achei que era balela, ou uma daquelas funções que vai aparecer uma vez em uma corrida bem específica e nunca mais dar as caras. Manter a temperatura dos pneus em níveis “aceitáveis” significa maior aderência dos mesmos na pista, maior controle durante as curvas, e aqueles milésimos de segundo removidos da volta — às vezes a diferença entre uma Pole Position e um terceiro lugar. Por ter achado que era história para boi dormir no começo, raramente notava se a temperatura dos pneus estava adequada. Novamente, eu estava nas opções padrão do jogo, onde as corridas têm de cinco a quinze voltas. Quando alterei para 35 ou mais é que realmente percebi o desgaste dos pneus ser profundamente afetado tanto pela temperatura interna como externa. Destruí dois pares de pneus super soft em sete voltas. Ugh! Melhor maneirar nas frenagens.

F1 2018

Diria que o modelo de pneus do F1 2018 é um dos melhores da sua categoria (se não inserirmos iRacing, RFactor e outros jogos que pendem muito mais para o lado simulação). Você vai sentir que a aderência não está das melhores quando você desligar as assistências; vai compreender que você não pode pular os dias de prática antes da qualificação, para garantir que não só os pneus, como os outros componentes do seu carro estejam perfeitamente alinhados com o seu objetivo para a corrida (ou fazer o download de uma das configurações disponíveis no Steam Workshop, caso esteja no PC).  Prática, planejamento, perfeição: os componentes que fazem o modo mais “realista” de F1 2018 excepcional.

Com a alteração da dificuldade até mesmo a minha reclamação dos pilotos serem completos panacas vai embora. Continuam não sendo tão bons nas ultrapassagens (apesar de sentir que ainda estão aquém da versão 2017), mas ao menos eles apresentam algum tipo de desafio, e — mais importante — também têm falhas em seus motores. Em uma das corridas no circuito do México, um componente do carro do Alonso deu problema, fez com que ele desacelerasse, e perdesse algumas posições. E eu sem prestar atenção bati nele, mas isso deixamos de lado ok?

Existem muitas outras particularidades — como o aumento do impacto da temperatura dos discos de freio na frenagem, o que faz você perder o controle do veículo com maior facilidade — que só são de fato sentidas quando você entra no modo — e na mentalidade — de simulação. E isso causa um impressionante efeito cascata no jogo. A árvore de pesquisas e desenvolvimento do modo carreira, introduzida em F1 2017, deixa de ser uma boa motivação para realização de desafios disponíveis durante a prática para se tornar quase que uma obrigatoriedade.

Na metade da temporada eu percebi que eu estava punindo demasiadamente a minha caixa de câmbio, ao ponto de conseguir desgastar os dois componentes alocados para essa temporada. O que eu fiz de errado? Teria sido Mônaco? Sempre sou terrível naquele circuito. Ou quem sabe Hockenheim, já que ainda não estava acostumado com os pontos de frenagem, e me desesperei nas duas últimas voltas para tentar chegar o terceiro lugar (não cheguei). Independentemente disso, eu estava ferrado pelo resto da temporada; teria de pedir um novo componente e arcar com a penalidade imposta pela FIA, como se já não bastasse ter que olhar para os carros feios dessa temporada. Imediatamente fui na central de pesquisa e desenvolvimento e garanti que os próximos componentes a serem pesquisados envolveriam a redução do desgaste da caixa de câmbio. Não ganharia nenhuma temporada? Definitivamente não, mas ao menos sabia que poderia levar o carro aos limites sem me preocupar.

F1 2018

Na realidade, creio que não ganhei nenhuma das dez temporadas de que participei em F1 2018, mas cada uma delas foi mais impactante que a outra. Saí da Force India para a Red Bull, depois para a McLaren, aguentei repórteres pedindo entrevistas (uma adição para tentar criar algum tipo de “drama”, mas que, com as perguntas repetitivas e a voz “robotizada” da entrevistadora, mais fazem eu perder meu tempo do que outra coisa), e levei as máquinas que pilotava aos limites.

Chame-me de louco, mas eu particularmente não me importo com dramas ou pilotos em automobilismo; saber se Alonso ou Hamilton venceu o último GP não é algo que me interessa, mas sim como os carros se desempenharam na pista, quais são as novidades que a equipe de engenharia traz para a atual, e para as próximas temporadas. Ter o controle desses aspectos, poder desenvolvê-los e — finalmente — sentir com mais intensidade a diferença que eles fazem é o que eleva F1 2018 para um novo patamar e o coloca, mais uma vez, dentre os melhores jogos da Codemasters.

Por mais contente que esteja, eu sinto que essa alteração foi feita em detrimento dos jogadores mais casuais, aqueles que — diferente de mim — reclamam quando uma corrida tem 15 voltas. Para esses, F1 2018 vai parecer uma melhoria insignificante, um “update” visual nos carros, umas pistas a mais e entrevistas no modo carreira. Para os que montam seus volantes, tiram horas do dia para praticar, e colocam programas de telemetria no PC para extrair cada milésimo de segundo, F1 2018 é um excelente game.

F1 2018

Total
Pendendo muito mais para o lado “realista” do que os seus antecessores, F1 2018 dá maior justificativa para a árvore de pesquisa e desenvolvimento, demonstra qual o verdadeiro impacto de punir o seu carro em curvas acentuadas, não prestar atenção na temperatura dos pneus, ou não saber usar o sistema de ERS. É fantástico para quem tem um volante e pende para jogar no modo mais “realista”, mas não espere novidades ou melhorias significativas caso jogue no controle.
Muito bom

Análise – F1 2018

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.