Análise – Evil Genius 2: World Domination

Nostalgia é uma desgraça mesmo, viu. No dia que a Rebellion anunciou que estava produzindo uma sequência para Evil Genius, um dos raros jogos onde você controla um vilão e cria uma base para dominação global, eu estava empolgadíssimo. “Nem acredito que vão dar a atenção devida para este jogo!”, exclamei de felicidade. A empolgação foi embora assim que comecei a minha primeira campanha em Evil Genius 2: World Domination (Steam).

Se você jogou Evil Genius, se sentirá em casa com Evil Genius 2. Você escolhe um dos quatro “vilões”, começa com uma base “básica”, a expande à medida que obtém recursos, cria salas para minions — pense neles como os seus trabalhadores braçais —, libera minions especiais como guardas ou cientistas até chegar nos capangas, minions com habilidades especiais e personalidade própria. Em meio a isto você completa tarefas que vão de “roubar bancos” e sequestrar espiões inimigos para obter informações a transformar a sua base em um gigantesco calabouço recheado de armadilhas.

Tematicamente não há nada de errado com Evil Genius 2; a Rebellion trilhou o mesmo caminho que a Two Point Studios fez com Two Point Hospital — uma nova roupagem para um jogo “clássico”, e algumas mudanças ali e acolá para deixá-lo mais fluido. Todavia, são exatamente algumas dessas mudanças na “fluidez” que o arrastam para baixo.

Um dos pontos mais fortes de Evil Genius sempre foi a sua estética e humor, que retornam impecáveis quando se trata da campanha principal com um dos quatro protagonistas (Maximilian, Red Ivan, Zalika e Emma). As missões, embora algumas vezes simples demais, são cheias de piadas e situações inusitadas. Entretanto, tudo que não diz respeito à campanha principal é um grandíssimo passo para trás.

Evil Genius 2
Acredite, isso é menos empolgante do que parece.

O gerenciamento e construção da base — que no original tinha um grande impacto devido à variedade de oponentes, armadilhas, e espiões — é diluída ao ponto de fazer com que qualquer layout funcione. Despistar espiões e diminuir a sua notoriedade são ações tão simplórias que nem mesmo me dei ao trabalho de pensar muito em como e onde colocava as armadilhas.

Minha presunção inicial era de que essas mudanças seriam suplementadas pelas quests secundárias ou ao menos eventos especiais. Ledo engano. Eventos são tão raros quanto água no deserto, e as quests secundárias não são mais do que uma variante ou outra da quest principal, mas sem o humor, sem as cinemáticas, e com objetivos mais fracos.

“Ah, mas quem sabe jogar com um personagem diferente vá mudar a situação”, pensei. Por mais que os protagonistas Maximilian, Red Ivan, Zalika e Emma tenham suas peculiaridades em termos de construção da base e gerenciamento de minions, a diferença é tão pequena que eu me sentia preso na mesma partida. Constrói aqui, melhora acolá, muda uma coisa ou outra mas a base continua a mesma — chata.

Para piorar a situação, a nova divisão entre a camada estratégica (mapa-mundi) e tática (sua base) conseguiu ficar ainda mais intragável. O primeiro jogo tinha lá os seus problemas na implementação, mas Evil Genius 2 vai além e transforma o mapa-mundi em nada mais nada menos do que um gigantesco minigame.

Clique em uma área do mapa, espere uma barra encher e pronto, agora você tem o controle temporário da área. Clique em uma operação, aguarde mais alguns minutos e lá está o dinheiro que você precisava para completar uma missão. O pior é a constante mudança entre o mapa do jogo e o mapa mundi já que, sabe lá por qual motivo, a Rebellion não colocou nenhum tipo de notificação ou listas de operações para você ficar de olho enquanto constrói a sua base.

Ver tudo dar errado garante ótimas risadas, pena que eu queria mais desafio.

Deslizes como o descrito acima são fáceis de deixar passar quando o restante do jogo vale a pena. Evil Genius 2 parece se esforçar ao máximo para que isso seja quase impossível de ignorar.  Quando não é o troca troca de mapa, são bugs que afetam elementos que vão do tutorial até pontos cruciais da campanha principal.

Veja bem, eu não sou o tipo de pessoa que se importa com bugs — afinal, muitos deles já podem ter sido resolvidos na altura que você ler este artigo. Eu abro uma grande exceção para Evil Genius 2 pois vi situações onde eu tinha que eliminar um alvo específico na minha base e ele simplesmente havia desaparecido. Em outro momento tentei fazer com que alguns dos meus minions “despistassem” possíveis espiões e eles fizeram o contrário — os deixaram entrar na minha base como se fosse um gigantesco museu aberto ao público.

Em cada momento que mais um bug aparecia na minha frente eu soltava um belo de um “Ah mas pelo amor de deus, deixa eu aproveitar o jogo por cinco minutos! Custa tanto assim?”. Minha paciência estava acabando, caro leitor.

Ela estava acabando pois eu sabia que debaixo dos panos e mais panos de decisões bizarras da Rebellion existe um jogo muito bom. Quando todos os elementos estratégicos e táticos se encaixam em uma das quests principais, Evil Genius 2 brilha e usa sua temática com incrível precisão e mostra o sucessor que ele merece ser.  Quando isto não acontece, você fica apenas com um “administrador de vilões” que luta para ser atraente.

A estética é fantástica, só não me pergunte o que os meus minions estão comendo.

Não nego que há um certo conforto em ver meus minions trabalharem na base, vê-los irem para alguma missão (e provavelmente não voltarem). Fico até aliviado que a Rebellion decidiu colocar um modo Sandbox, já que se for para passar meu tempo fazendo pouca coisa, que seja ao menos criando layouts bem feitos. Mas este conforto vem da nostalgia que, como disse, é uma desgraça.

O que mais me frustra é ver que Evil Genius 2 é da Rebellion, uma empresa que em 2019 conseguiu pegar uma franquia que eu dava como fracassada (Nazi Zombie Army) e revitalizá-la com Nazi Zombie Army 4. O porquê disso não acontecer com Evil Genius 2 é um mistério que pode ser resolvido em instantes: ele é um jogo inacabado.

Sou avesso a usar a palavra inacabado, mas é essa a sensação que eu tenho depois de tantas horas de jogo, horas permeadas por pensamentos como “por que não usaram mais eventos aleatórios como tantos outros jogos do gênero usam na atualidade?” ou “por que diabos não oferecem atalhos para as ferramentas de construção” e “um sistema de pesquisa e desenvolvimento? A única adição é fazer o jogo ficar mais arrastado!”.

Evil Genius 2
Ao menos a Rebellion soube manter o humor da série.

Engraçado como as coisas são, não? Lembro de ter escrito o mesmo na minha crítica de Two Point Hospital — que também veio cheio de seus pequenos defeitos como pathfinding e bugs. Três anos após o lançamento e agora ele é um excelente sucessor espiritual de Theme Hospital.

Não tenho sombra de dúvidas que a Rebellion irá lançar atualizações, que o passe de temporada de Evil Genius 2 irá rechear o jogo com mais “conteúdo”, e que — com sorte — a desenvolvedora irá escutar o feedback da comunidade. Mas, lançar um jogo neste estado em pleno 2021 e ciente dos problemas, é demais para mim. Não há nostalgia no mundo que me faça ignorar as dores de cabeça que tive com Evil Genius 2.

Evil Genius 2: World Domination

Total - 6.5

6.5

Evil Genius 2 tinha tudo para ser a sequência perfeita de um aclamado clássico de estratégia, mas no momento ele não passa de uma fraca homenagem. A temática e o humor estão presentes, acompanhados de bugs na interface, quests secundárias desinteressantes e uma patética camada de gerenciamento. Por ora, é melhor colocar seus planos de dominação mundial em hiato.

Análise – Evil Genius 2: World Domination

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.