Análise – Europa Universalis IV: Mandate of Heaven

Antes de começar uma partida em Europa Universalis IV, me questionava quando que diabos a Paradox ia fazer alguma expansão focada no oriente. Passei 2015, 2016 esperando, mas 2017 e Mandate of Heaven chegaram. Para quem que, por tanto tempo esperou para começar uma partida com o Japão ou a dinastia Ming, é quase uma dádiva.

Primeiro, é preciso pôr os pontos nos “i”s e salientar que, não, que Mandate of Heaven não é uma expansão que julgo totalmente essencial para quem gosta de Europa Universalis IV, ainda mais aqueles eurocêntricos. Mas, se você sequer cogitar uma partida com a China ou a região do sudeste asiático sem ela, é quase que uma grande perda de tempo.

Ming agora recebe uma mecânica do Empire of China, algo como uma HRE com um propósito diferente. Ao começar em 1444 o jogador é o líder e pode passar reformas com o uso do Mandate of Heaven. Mandates são a moeda de troca obtida de acordo com a estabilidade e a quantidade de estados tributários sobre o seu domínio.

A mecânica é diretamente ligada aos eventos de instabilidade na região, como a invasão de hordas da Manchúria ou os Mongóis. Quanto menos Mandate você possuir, pior vai ser o rendimento das tropas no combate e mais as chances de que a estabilidade da nação diminua. Equilibrá-la, no entanto, é mais fácil do que aparenta

Ming sempre foi uma dinastia relativamente poderosa, agora com a inclusão do Empire of China, ela está ridiculamente poderosa. Quem souber o mínimo de estabelecer um bom grau de domínio sobre a região não vai ter problema algum com hordas, e para preocupar ainda mais, pode facilmente expandir o controle sobre outras nações da região.

Concordo que em partes, certas mecânicas estão desbalanceadas, ainda mais os sistemas tributários de quem controla o Empire of China. Tributos podem vir na forma de dinheiro, pontos de desenvolvimento administrativo ou militar. Mesmo com as penalidades de desenvolvimento de tecnologias, não demora muito para que você melhore as províncias da região apenas com o sistema de tributos e vire uma superpotência ainda mais forte do que antes da expansão. Embora compreensível de um ponto de visto histórico, torna a experiência de jogar com eles um pouco menos interessante.

O medo de ser anexado pelo Ming fica na mente de todos da região, inclusive com o Japão e seu isolacionismo, palco da minha segunda partida. O Japão agora não é iniciado mais unificado e definitivamente instável com as inúmeras guerras e feudos pelo controle do território. Enquanto tentava tomar o controle do máximo de províncias, meticulosamente alterando entre saber quando usar ou não minhas frotas, ficava de olho no constante crescimento do império Chinês.

Tudo bem que eu cutuquei a “fera” mais do que precisava para ver o que acontecia, não deu outra, ele passou como um rolo compressor sobre a região, dizimou as minhas tropas e a partida acabou por aí. Sem segundas chances.

O próprio Japão agora tem algumas mecânicas interessantes, como o Xintoísmo e eventos que causam ou não a abertura da nação para influencias estrangeiras. Tais elementos influenciam diretamente a relação do jogador com os outros clãs da famosa ilha. Quer adotar uma política que pode causar um evento isolacionista? É bom pensar duas vezes e ver quais clãs podem ser contra a minha atitude. Em uma aproximação mal calculada a um evento mercantilista fez com que uma das minhas alianças se dissolvesse e eu me tornasse um alvo fácil para os outros clãs.

Como de costume, outras expansões — como Rights of Man — adicionam ainda mais complexidade a região, como a atribuição de personalidades ao atual regente. Quem tem o pacote completo vai acabar presenciando uma das regiões mais instáveis e ao mesmo tempo, mais desafiadoras e atraentes de se começar uma nova partida. Quase todas as minhas acabaram terrivelmente mal, mas eu mal posso esperar para quando tiver tempo sentar e dar mais uma chance ao Japão.

Mandate of Heaven

Mesmo que você opte por não jogar com estas nações, a atualização gratuita Ming (1.2.0) traz em partes excelentes adições, e em outras, adições controversas. A começar pelo sistema de Ages, que agora divide as partidas em “Eras”, como a Era do Descobrimento, a Era da Renascença ou a Era das Revoluções.

Como aconteceu com Way of Life e Monks & Mystics para Crusader Kings 2, a mecânica está mais presente para adicionar alguma forma de direcionamento para novos jogadores do que outra coisa. Entretanto, parte dos objetivos e dos bônus dados — como aumentar a quantidade de exploradores na era do Descobrimento — é demasiadamente eurocêntrica para o meu gosto. Aqueles que optam por jogar com nações menores tendem ou a não ter os requisitos para completar certos objetivos, ou tendem não ter uma boa fundação financeira para realiza-los.

Acaba por soar como uma ferramenta punitiva para quem fugir um pouco demais desses objetivos enquanto fortalece áreas que, bem, não necessitam de fortalecimento. É diferente dos Ming, que no momento da escrita desta análise, estavam terrivelmente fortes, mas que podem ser reduzidos com uma ou duas atualizações. As Ages, no entanto, seriam melhor implementadas caso a Paradox me desse uma opção de desativá-las, ainda mais ao jogar no oriente. Eu torço para que uma ferramenta no estilo Crusader Kings 2, onde você pode melhor personalizar o início de uma partida, sejam implementadas futuramente.

Por último, mas não menos importante, chega a minha opção favorita de Mandate of Heaven e a atualização 1.2.0, o sistema de automação de diplomatas. É impossível reforçar o quão útil ela é para quem já é veterano na série. Está com um diplomata à toa? Coloque-o para tratar de assuntos como melhorar as relações entre nações aliadas ou que podem surgir como uma ameaça futuramente. Na interface também é possível identificar quais nações podem aceitar um casamento real, pedir tributo — no caso do império da China — sem ter de sofrer ao fazer dez, ou vinte clicks e navegar por inúmeros menus sem tamanha necessidade.

O sistema, como outros já implementados pela Paradox, tem seus pontos fortes e fracos. Ele serve como uma ferramenta auxiliar ao invés de uma total remoção do microgrenciamento de diplomatas. Em alguns casos a IA tomou algumas decisões no mínimo duvidosas na hora de priorizar algumas nações — como se focar em aliados cujo benefício de melhorar as relações era quase ínfimo. Um ajuste ali e outro acolá fez com que o problema não reaparecesse.

É interessante perceber, no entanto, o grande distanciamento de fatores que compõem tanto Stellaris: Utopia quanto Europa Universalis IV: Mandate of Heaven. Uma, promove direcionamento para um jogo que ainda busca a sua identidade e o outro aprimora ainda mais um jogo amadurecido. A Paradox teve seus altos e baixos no passado, sinto que cada vez mais ela volta aos trilhos e isto me deixa muito feliz.

Reitero que Mandate of Heaven pode não ser essencial para quem não planeja jogar com países asiáticos, mas mais uma vez a Paradox mostra, para a minha surpresa, que Europa Universalis IV ainda tem muito a oferecer. Não duvido que algumas das mecânicas referentes aos Ming venham a ser equilibradas em uma futura atualização. No fim a expansão era tudo o que eu queria de uma expansão para o sudeste asiático. Inclui mecânicas que eu tanto desejava, é no geral polida e a garantia de que vou gastar ao menos mais umas 40 horas no Grand Strategy da Paradox.

Europa Universalis IV: Mandate of Heaven

Total
Pode estar um pouco desbalanceada em relação ao império da China, porém Mandate of Heaven torna-se uma espetacular expansão para aqueles que tanto esperavam a oportunidade de mecânicas mais robustas para a região. Agora é só arranjar mais tempo na minha agenda e mergulhar a fundo, tentar unificar o Japão, jogar com outras nações e estabelecer desafios absurdos para elas.
Excelente

Análise – Europa Universalis IV: Mandate of Heaven

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.