Análise – Endless Legend: Symbiosis

Tem dias em que eu me arrependo de não ter aprendido xadrez quando era mais novo; vira e mexe eu vejo algum livro sobre as diferentes jogadas iniciais e fico “como é possível tamanha complexidade?”. O assunto “jogadas iniciais” ficou muitos dias sobrevoando a minha cabeça depois de jogar Endless Legend: Symbiosis (Steam). Mais do que todas as raças do game da Amplitude, os Myrkara são profundamente dependentes de que esses turnos iniciais ocorram em uma ordem extremamente específica. E isso me incomoda.

Originados das profundezas de Auriga, os Mykara são um grupo de seres formados por esporos e fungos que, ao invés de consolidarem a sua dominação pelo combate, usam seus atributos especiais para “infectar” cidades inimigas, construir túneis, e se movimentar pelo mapa com agilidade. Entretanto, só podem ter uma cidade.

No fundo, não é nada novo ter somente uma cidade. Muitos jogadores tendem a fazer isso em 4Xs mais “tradicionais”, como Civilization. Ao mesmo tempo, ao forçar isso no jogador, a Amplitude requer que você reaprenda quase todos os sistemas de Endless Legend, e dê espaço para os seus oponentes respirarem, expandirem, antes que você possa aniquilá-los.

Dar espaço para o oponente crescer é uma tática que vai contra a maré do que tende a ser feito quando a partida gira em torno de controlar uma única cidade, tendendo a ser do interesse do jogador cortar o fluxo de recursos estratégicos do oponente o mais rápido possível, mantendo-os assim em uma coleira enquanto você busca o jeito mais eficaz de usar as suas terras para seu benefício. O principal motivo dessa tática ser prejudicial para os Mykara vem do componente essencial para a sua sobrevivência: alimento.

A dependência em alimento é tão brutal que uma localização ligeiramente errada pode interromper a sua expansão territorial, que já é pequena. Como só podem ter uma cidade, os Mykara requerem que não só que seus oponentes sejam localizados no mapa com certa rapidez, como que também seus movimentos sejam acompanhados minuciosamente até entender a hora certa de “atacar” as cidades – digo, usar suas unidades para assimilar as cidades inimigas como grandes bastiões de fungos e obter parte dos recursos gerados por elas.

Endless Legend
Ter controle direto de somente uma cidade é desafiador, mas pelos motivo errados.

Mas em que ponto exatamente você deve assimilar? Quando a IA tem uma cidade, duas, três? Claro que essa resposta vai variar de acordo com a facção oponente. E outros fatores também precisam ser levados em consideração –  como quantas facções minoritárias foram conquistadas por eles nesse meio tempo, quantas unidades você mesmo assimilou, e outros detalhes como o inverno, que pode durar até 30 turnos e cortar seu suprimento de alimento e o das outras cidades pela metade.

Essas questões são as que eu sempre tenho em mente ao jogar com qualquer nova civilização ou facção de um 4X, e por mais que eu veja que os Mykara possuem certas vantagens – como o uso de uma rede de esporos estabelecida no topo de ruínas como meio de transporte pelo mapa, facilitando assim o domínio da região – eu ainda os vejo como uma facção que é ao mesmo tempo pertencente e não-pertencente a Endless Legend.

Isso vem muito dos últimos 2 “x” que compõem “4X”: Exploit e Exterminate. Eu entendo e aprecio o que foi feito para que os Mykara se integrem ao universo Endless, mas Endless Legend ainda é um jogo que acompanha um pouco perto demais certas convenções do gênero 4X, mesmo reinterpretando e inovando o suficiente para ter sido o “boom” que efetivamente  revitalizou o gênero em 2013. Do design das tropas até a estética de peças em um tabuleiro que é atribuída a Endless Legend, você ainda tem muito por trás a ideia de que uma partida só merece ser continuada ao ver que você tem como vencer. E eu abandonei muitas partidas com os Mykara.

Em parte foi minha culpa; não prestava atenção nas jogadas iniciais, ou achava que uma floresta e o fluxo de alimento da mesma me bastaria. E muitas vezes logo descobria que se eu tivesse esperado mais dois ou três turnos, uma das minhas unidades teria achado um local muito mais propício para estabelecer a minha cidade. As outras partidas que abandonei têm a ver com o próprio tamanho do mapa, as facções inimigas que encontrei e a maneira como os Mykara requerem tanto que todos os outros elementos estejam precisamente colocados para que alguma vitória seja obtida.

Afinal de contas, o que é importante para Endless Legend ainda é a vitória, é exterminar o oponente por diferentes métodos e sair no topo. Com um punhado de quests a mais, com mais personalidade do que muito 4X por aí, mas ainda se trata de vitória.

Endless Legend
Os Urkan alteram o curso de uma partida, mas trazem mais benefícios para outras facções do que para os Mykara.

Do que os Mykara – e Symbiosis – realmente precisam é de um 4X que os deixem atuar em camadas mais profundas, ou um 4X que dê a eles a liberdade de se adaptarem mais prontamente às mudanças radicais que podem ocorrer na partida. Em termos de design, acho que se encaixariam muito bem em Star Ruler 2 (com as devidas adaptações), já que poderiam muito bem se sustentar dentro de um sistema solar. E algo no estilo de Thea: The Awakening seria ideal – eles se encaixariam perfeitamente.

Se me esforçar bastante, até diria que eles se encaixariam melhor em Stellaris do que qualquer jogo da franquia Endless. Eu já larguei partida de Stellaris por tédio, mas nunca por não querer ver até onde o meu império iria chegar. Com os Mykara esse desejo vai rapidamente embora. Eu vejo ações erradas ou situações possivelmente impossíveis, e o botão de encerrar partida já estava ali do lado.

Sequer os Urkans, facilmente a melhor adição da expansão — para não dizer a única competente — me salvaram de desistir de uma partida. Aparecendo aleatoriamente em um território neutro, esses seres enormes podem ser “comprados” por um tempo determinado com dinheiro, ou conquistado na base do combate. Quem os tiver terá não só uma unidade poderosa, mas uma maneira nova de converter território neutro em território aliado.

Com os Mykara, dinheiro e força foram dois recursos que eu jamais vi em abundância. Minha rede de esporos requisitava que eu mantivesse um bom estoque de recursos estratégicos e de luxo, o que significa mais investimento financeiro. Minhas tropas estavam em constante movimento e combate para evitar a expansão do inimigo. Era como jogar Endless Legend em um eterno estado de contenção. Meus inimigos, no entanto, dispunham de tais recursos de sobra, e usaram múltiplas vezes as bestas contra mim. Bom, ao menos a IA ficou mais inteligente.

Endless Legend
As unidades dos Mykara precisam estar sempre em combate se você planeja vencer.

Onde Endless Legend: Inferno viu uma oportunidade para oferecer ainda mais expansão, alterações no terreno e uma facção distinta, Symbiosis perde-se na armadilha de querer prover desafio ou periculosidade para um jogo que não necessariamente necessita disso. Impor esse tipo de desafio de uma cidade a si mesmo, jogar “tall”, é uma ótima maneira de aumentar a longevidade de um 4X, mas são tantos fatores que precisam sair “corretos” dentro de uma partida de Endless Legend, que é fácil acabar achando que o esforço é em vão.

Tudo isso me faz lembrar de uma conversa no Three Moves Ahead entre Rob Zacny, Jon Schafer (Civilization IV ) e Soren Johnson (Civilization IV) sobre o late game, expansões e a dificuldade de decidir quais adições se encaixam dentro do escopo de um 4X, e qual é a quantidade “correta” de turnos para uma partida de Civilization. Perguntas que não só são complexas demais para serem respondidas aqui, mas que são muito pertinentes em relação a Symbiosis em particular. Soren aponta que, pela quantidade conteúdo de Civilization, não há como fazer um jogo com menos de 500 turnos, mas seria 500 turnos o número “correto” para a longevidade de uma partida de Civilization?

Eu vejo essa como a principal pergunta que Symbiosis precisava responder. Quantos turnos, quais as condições que precisam estar presentes para os Mykara serem realmente úteis? Em um jogo tão aberto como Endless Legend, com tantas pessoas e estilos de jogo diferentes — sem contar mods — não há uma decisão unânime. O que há, porém, é uma facção que pode se encaixar tematicamente, mas não mecanicamente no 4X.

Agora, imagine se alguém escrevesse um livro como os de xadrez que eu citei, mas para os Mykara? Provavelmente só teria uma página. Nela estaria escrito: “boa sorte”.

Endless Legend: Symbiosis

Total
Symbiosis e sua facção primária — os Mykara — se encaixam tematicamente no universo Endless, mas a forma de ser jogada, e as próprias condições impostas por um sistema ainda restritivo do que entendemos como um jogo de estratégia “4X” - onde vitória inevitavelmente vai acabar sendo prioridade - fazem com que a dependência da “sorte” para vencer uma partida acabe levando ao desinteresse.
Fraco

Análise – Endless Legend: Symbiosis

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.