Análise – Dead Cells: The Bad Seed

Eu não tinha ideia do quão equivocado estava sobre a curva de dificuldade de Dead Cells na última vez que escrevi uma crítica dele. Elas me soavam irritantes, dependentes demais de aleatoriedade e um grind desnecessário. Após experimentar o DLC The Bad Seed (PC / Xbox One / PlayStation 4 / Nintendo Switch), vi esforço que a Motion Twin (e a sua co-produtora Evil Empire) em não só deixar essas dificuldades mais agradáveis – dar ótimos motivos para explorá-las.

Para ser honesto, eu comecei a escrever essa análise assim que peguei a minha quinta célula de chefão – possível apenas quando você mata o gigante com quatro células ativas. (Cada célula aumenta ainda mais a dificuldade). Ao contar da minha persistência para um amigo, afinal foram quase quatro horas ininterruptas de tentativas, ele me falou que tinha desistido muito antes por conta da aleatoriedade de Dead Cells.

Esse sentimento é compartilhado, ao menos na minha pequena bolha, por várias pessoas que jogaram Dead Cells do início do acesso antecipado até as suas subsequentes expansões. Não é para menos, quase todas as atualizações se focavam em refinar o conteúdo endgame – Rise of the Giant, a última grande expansão gratuita era justamente isso – novas áreas ainda mais difíceis e com condições específicas para serem liberadas. Mas, para aqueles preso no limbo das dificuldades mais baixas, isso não significava muito.

Por muito tempo eu permaneci nesse limbo. Fazia as mesmas runs de Prisoner’s Quarters -> Toxic Sewers -> Ancient Sewers -> Insufferable Crypt e por aí vai. Um inimigo ali e acolá foi adicionado, mas a sensação de repetição permanecia. Cheguei a um ponto (nas minhas 50hrs de jogo no PC e sabe lá quantas no Switch) que eu comecei a notar como cada bloco de fase era formado em conjunto com a geração procedural.

Bad Seed
O labirinto do arboreto só fica pior nas dificuldades mais altas. Mas, o que seria Dead Cells sem um pouco de sofrimento?

A “maldição” foi quebrada por The Bad Seed; expliquei para o meu amigo que eu não teria conseguido vencer nas dificuldades mais altas se não fossem pelas garras obtidas do novo chefão – a Mama Tick. Eficiente para quem gosta de builds de esquiva, ela ocupa o slot da arma principal e secundária para desferir combos que podem gerar dano crítico. Uma troca justa, ainda que arriscada.

Esse foi só um dos motivos pelo qual o DLC foi tão importante para mim. Inserido entre o segundo e o terceiro estágio, eu não precisava pegar mais as mesmas rotas que eu fazia desde agosto de 2018. Tinha mais espaço para trabalhar o conceito de sinergias entre equipamentos e novos inimigos para testar.

E, mais uma vez, a Motion Twin cria uma fantástica ambientação que não só se encaixa no restante de Dead Cells, como adiciona uma boa camada de “lore” (se liga para isso). O arboreto – a primeira área que você vai encontrar – estende a excentricidade do rei frente a tudo que dizia respeito a si. Estruturas uma vez imponentes, mas agora destruídas com o tempo e lar de bizarros seres.

O resultado desses exageros unidos com negligência é o que forma a “Morass of the Banished”, a segunda área do DLC. Assim como mapas como Forgotten Sepulcher, Stilt Village, ele mostra o lado dos experimentos que o rei conduziu na ilha – como ele a transformou em seu laboratório pessoal sem muita preocupação pela vida humana.

Bad Seed
Mama Tick pode não ser tão desafiadora quanto aparenta, mas as recompensas são excelentes.

Morass of the Banished me impactou mais do que eu esperava. Cruzes ao fundo me recordavam de que para alguns a morte era definitiva, mas não para o meu personagem. Eu era “imortal” – uma maldição dentro do mundo de Dead Cells. Aqueles presos a uma cruz ao menos tiveram um final definitivo. Que, certas ações vão ser repetidas por mais que você tente evitá-las.

Tanto ciente e conivente da minha “imortalidade”, usei dessas áreas para refinar as minhas habilidades. Além das garras, novas mutações abriam caminho para diferentes ideias, novas sinergias e métodos de eliminar os meus inimigos. Se é que posso chamá-los disso, mas não vou entrar em detalhes sobre a história de Dead Cells para evitar spoilers.

O que me fez levantar o questionamento: teria eu batido a cabeça contra a parede em relação as sinergias e como repensar a dificuldade ou foi The Bad Seed que revigorou tanto assim o meu interesse? Ambas as respostas são válidas.

O ciclo de monotonia das áreas iniciais foi quebrado, o que me fez investir mais tempo em Dead Cells. Assim que fiquei ainda consciente das escolhas de equipamento que fazia, melhor me tornava no jogo. Os novos inimigos – que vão de homens cogumelo a seres banidos munidos com zarabatanas – trazem novos e inesperados padrões de ataque. Eu tinha que me adaptar tanto quanto The Bad Seed tenta, e consegue, se adaptar ao meu estilo de jogo.

Bad Seed
Ambientes macabros e negligência do ei com o seu reino continuam a ser forte temas em The Bad Seed

Mas talvez o mais importante é que Bad Seed não é necessariamente orientado para aqueles que já completaram Dead Cells. A introdução dele como uma alternativa do early game prepara quem é marinheiro de primeira viagem para os diferentes tipos de inimigos que eles poderão enfrentar no futuro, assim como guarda boas surpresas para quem está batalhando para pegar a sua quarta ou quinta célula de chefão.

Acredito que os melhores DLCs – ao menos em recente memória – não são aqueles que transformam o endgame em algo ainda mais interativo. Esse conceito pode ser aplicado para os jogos “Live Service” como The Division 2, Destiny 2 e afins. Mas o grosso dos jogadores às vezes sequer encontra tal conteúdo. Para fins comparativos, apenas 2,1% dos jogadores obtiveram a quinta célula do gigante. Um número irrisório para um jogo que vendeu mais de 2,4 milhões de cópias.

DLCs precisam ser mais construídos em torno de pequenas adições com um impacto profundo de médio a longo prazo. Darem ferramentas para os jogadores enxergarem novas motivações, tentar novas estratégias ou até – no caso de The Bad Seed – aprender mais sobre o universo de Dead Cells.

Sei que muitos torceram o nariz quando viram que Dead Cells teria um DLC pago, e eu sem dúvidas não sou um desses de comparar conteúdo X preço – uma discussão que traz poucos frutos para uma indústria que já está conturbada o suficiente. Todavia, pelo seu preço de R$10,89, fica impossível de não recomendá-lo. Seja você veterano ou novato.

Mas por favor, preste atenção nos novos ataques dos inimigos, pois te garanto que eles não vão ser nem um pouco piedosos com você, e não me venha chorar por que perdeu “aquela run que seria vitoriosa”. Repense, revise e se reerga; The Bad Seed dá mais do que motivos suficientes para isso.

Dead Cells: The Bad Seed

Total - 10

10

Bad Seed entra no meio-termo entre um DLC focado em veteranos e novatos. As mecânicas e equipamentos introduzidos são ótimas fontes de ideias para novas sinergias, a história por trás do arboreto é tão instigante quanto o jogo base e os inimigos continuam tão criativos quanto antes. Jogou Dead Cells e gostou? Então vai fundo em Bad Seed.

Análise – Dead Cells: The Bad Seed

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.