Análise – Daemon X Machina

Se quem não tem cão caça com gato (apesar de achar essa frase errada, pois meus gatos são péssimos caçadores), quem não tem console ou um computador capaz de emular Armored Core joga Daemon X Machina (Nintendo Switch / PC). Não digo isso de uma forma negativa.

Lançado primeiro para o console da nintendo em setembro de 2019, Daemon X Machina (DXM) é, acima de tudo, um tributo aos jogos que vieram antes dele e uma tentativa de incluir novas mecânicas e temas ao gênero. Pena que, parte dessa inclusão se limita a ampliar a conectividade online.

A ideia em si não é nova, Armored Core V – considerado um dos piores da franquia – optou por uma campanha mais curta e menos variada em favor de um sistema PVP que morreu poucos meses depois. A meu ver a resposta da comunidade foi bem clara: queremos destruir coisas, queremos explosão e espetáculo, mas não queremos nos preocupar com partidas PVP, há outros jogos que podem preencher esse espaço.

Daemon X Machina fica na corda bamba de agradar jogadores que buscam algo coop, PVP e uma campanha single-player. Levando em consideração os diferentes perfis, até que ele faz um trabalho competente.

Claro que o primeiro elemento a ser prejudicado é a campanha, que como muito bem falou um conhecido meu, “É como se alguém escrevesse seis tramas que ocorrem em paralelo e não dá um ponto final a nenhuma delas”. Na décima missão eu já não sabia quem era quem, o que eles estavam ou não fazendo do meu lado ou qual era meu inimigo. A partir daí eu comecei a cogitar pular as cinemáticas; não fiz e agora me arrependo.

Daemon X Machina
Seus companheiros de equipe adoram falar durante as missões. Tente não prestar muita atenção, você não vai entender a história de qualquer jeito.

Mas o grosso de um jogo de mech para mim ainda é o espetáculo da destruição e a personalização de seu armamento. Nisto Daemon X Machina dá aos montes, ainda que um pouco supérfluo demais para o meu gosto. Parte do defeito vem dessa corda bamba que a Marvelous criou para si mesmo ao tentar agradar múltiplos públicos.

Ele é um daqueles jogos que gosta de bater no peito e falar que tem “999” armas diferentes, mas se você se limitar a campanha, deve usar no máximo duas ou três variantes. Quem sabe vai até ousar experimentar novas táticas ao lutar contra os principais chefões.

O principal empecilho para que essas armas não tenham serventia é o quão básico a IA é na campanha principal e como as construções das fases são repetitivos. Os primeiros três ranques, que compõem cerca das seis ou sete horas iniciais de jogo, resumem-se a: “vá ali e destrua uma instalação”, “explore uma região onde um alerta foi recebido só para encontrar mais inimigos” ou “derrote esse chefão”.

Para garantir que eu não estava imaginando coisas, decidi voltar para Armored Core 4 que membros da equipe de Daemon X Machina trabalharam. A primeira missão começa com uma estrutura básica e uma familiarização dos controles. A partir da segunda você vê uma maior variedade de estruturas e arenas de combate. Ora você está dentro de uma instalação e pode correr o risco de ser encurralado por mechs, ou você está em uma região tomada por água voando a milhares de quilômetros por hora para destruir uma bateria antiaérea.

Chefões no modo coop não deixam fácil para você, a não ser é claro, se você estiver propriamente equipado.

A temática desértica optada por Daemon X Machina – ainda mais no PC com os visuais refinados – é um deleite, mas o uso de áreas abertas não te instiga a pensar sobre o que você deve fazer para encurralar o inimigo. O efeito cascata resulta em você olhar para uma arma e pensar “seria que este rifle que tem um alcance de 220 é mais útil que essa submetralhadora com um alcance de 150?”. Não há como saber de um jeito claro, pois o jogo não estabelece cenários onde essa diferenciação é importante. Como eu imaginava, o aspecto coop, de exploração e PVP mais do que compensa por isso.

Cheguei a jogar uma dúzia de partidas via Steam e só de ver que eu não tinha que lidar, muito menos pagar por um online tão precário quanto o do Nintendo Switch já foi um grande alívio. Mas Daemon X Machina vai além de prover operações cooperativas interessantes, são elas que representaram as mais de 20hrs que gastei, mesmo quando eu decidia jogá-las em modo solo. Um adendo: elas são muito mais difíceis em modo solo, mas por ser alguém teimoso e que já completou jogos como Monster Hunter 4 nas dificuldades mais altas – e eu nem sou bom nele – já imaginava que esse seria o resultado.

O que era “escolha qualquer arma” vira um cuidadoso processo de preparação, buffs para elementos, construção de armas e diferentes equipamentos para missões específicas. Em suma, um Monster Hunter pré-Monster Hunter World com mechs.

Essa foi, de longe, os auges de Daemon X Machina. Meu mech vivia em constante perigo, minha barra de VP (pontos de vida) flutuava entre 20% e 30%. Aquela tensão constante de acreditar que não vai conseguir sair vitorioso, mas no fim dar tudo certo.

Até o conceito das fases, tediosas no modo single-player, ganham um novo aspecto com uma IA mais esperta, maior presença de mechs inimigos e mapas que permitem o uso de chokepoints ou manobras defensivas. Por exemplo, stamina – usada para acelerar o seu mech – não era um problema na campanha, mas ao jogar online, tinha que gerenciá-la para não me pegar em uma situação desvantajosa e não ter como escapar.

Daemon X Machina
Daemon X Machina é melhor apreciado com quatro jogadores, mas vai ser um deleite para quem for paciente ou gosta de coletar todos os armamentos possíveis .

E quando eu estou na cabine do piloto, desviando de mísseis e usando as minhas armas favoritas, não tem como dizer que Daemon X Machina não é capaz de englobar toda a emoção que são os jogos de mechs. Olho para ele e penso “nossa, Armored Core finalmente chegou no PC, e eu não poderia estar mais contente”.

Eu sei que ele pede um grande esforço do jogador, ainda mais nessa tentativa de empurrar modos fora do que é tradicional do gênero e que vai pesar muito mais para quem dá preferência as explosões do que gerenciamento e grind. Mas no fundo, ainda é um jogo de mech feito para fãs de mechs. Como MechWarrior 5: Mercenaries no final de 2019, sua proposta é de destruir tudo o que ver pela frente, e mesmo com os seus defeitos, merece sua atenção.

Queria eu que Armored Core 1-4 fossem portados para o PC junto com o fantástico e esquecido Chormehounds? Não precisa nem me perguntar duas vezes, mas se a sua sede de mechs, histórias sem sentido e microgerenciamento exagerado é tão grande, Daemon X Machina vai mais do que saciar a vontade.

Daemon X Machina

Total - 8

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O maior defeito de Daemon X Machina é tentar agradar públicos de diferentes estilos – e mais sentido na sua repetitiva campanha single-player. Mas, se você tem um grupo de amigos, ou é paciente e mente aberta, vai ter um mar de diversão te esperando nos componentes online. Agora sem a necessidade de aturar o sistema precário do Nintendo Switch.

Análise – Daemon X Machina

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.