Análise – art of rally

Embora ainda acredite que nostalgia é um dos mais perigosos venenos para a humanidade, 2019 e 2020 tem se tornado anos notáveis para ver como desenvolvedores independentes a usam para fins mais benéficos. Se fosse para coroar o melhor que vi esse ano, este troféu iria para art of rally (Steam / GOG) da Funselektor.

Os desenvolvedores canadenses, mais conhecidos por seu trabalho em Absolute Drift, não escondem a sua paixão pelo automobilismo e a nostalgia pela “era de ouro” do Rally — dos começos módicos durante a década de 40 até o perigoso Group B, que durou poucos anos dado o relaxamento de regras, montadoras excêntricas, pilotos destemidos e muitos acidentes. Todavia, ao invés de vangloriar essa era como “a melhor época possível”, eles a apresentam como um recorte. Um recorte do passado que nunca vai voltar. Espaços até então tomados pelo ultrarrealismo de DiRT Rally 2.0 ou WRC 9 são trocados pelo que pode ser descrito como “sonhar acordado”.

Cores pastéis se intercalam com tons fortes; a visão até então íntima da cabine do piloto é removida em favor de uma câmera vista de cima. O uso desta câmera, não só para fins de jogabilidade, dá uma sensação de que você — ainda que controle o carro — é um mero espectador, talvez mesmo um pássaro que por acaso sobrevoa um evento que não entende muito bem e mesmo assim o hipnotiza. Seja o ronco dos motores dos carros, o risco que os espectadores tomam para ver seus pilotos favoritos cruzarem a linha de chegada, ou as barracas armadas pelos entusiastas que querem ver cada momento de um dos esportes mais perigosos já inventados pela humanidade —há muito potencial para atrair a atenção de pessoas e até pássaros.

Entretanto, a Funselektor não hesita em demonstrar a realidade do que se passou na época. Ela não vai a fundo como documentários como “Rally: The Great Adventure” ou “Madness on Wheels: Rallying’s Craziest Years” — os quais recomendo bastante para fãs do esporte —, mas sempre deixa clara a evolução e o perigo do esporte em pequenas descrições ao longo do gigantesco modo carreira com mais de 60 pistas.

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Sem pacenotes? E que tal sem saber o dano do carro a não ser? art of rally é impiedoso

O simples porém importante ato da desenvolvedora é o que faz ela se destacar daqueles que bebem tanto da fonte da nostalgia. É muito fácil olhar para trás e pensar “nossa, as coisas eram ‘melhores’ no passado, não?”. Nossa visão é turva, contorcida pelas nossas próprias emoções no período — que muitas vezes nos impedem de repensar nossas memórias de forma mais crítica. Eu mesmo adoro brincar de como eu detesto o novo formato dos carros da Fórmula 1 nos meus textos sobre a franquia, mas eu sei que no fundo é para a segurança dos pilotos.

Embora não tão explícito quanto gostaria em art of rally, a Funselektor se desdobra para demonstrar os riscos carregados pelo esporte por meio de cada pista, cada carro, e cada categoria. Os carros do Group 2, com seus inícios humildes no final de 1946 e durando até 1972, são quase como um passeio no parque em um fim de tarde. As pistas são um convite para explorar, arriscar, tentar obter o melhor tempo possível e ganhar o campeonato.

Daí para frente a intensidade só aumenta, com as regulações do Group 3 e 4 sendo modificadas para mais potência, mais ousadia — e mais perigo. A rota da Finlândia que você jogou horas atrás deixa de ser a beleza que você acreditava ser para virar um inferno na Terra.

Para tornar as coisas ainda mais complexas, a Funselektor abre mão do sistema de pacenotes que indicam a intensidade e o quão longa é cada curva. Afinal, você não precisa dele, já que tem uma visão clara do que está na sua frente graças à câmera usada. Agora, a visão você pode até ter, mas e a coordenação, o tempo de resposta?

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Te garanto que nem todo momento é de glória.

Usando um comentário do ex-piloto Bjorn Waldegard do Group B dito anos após o término da categoria, devido em parte ao acidente mortal do piloto Henri Toivonen: “Os carros eram tão rápidos que o seu cérebro não conseguia reagir a tempo; era muita informação. Você precisava de mais do que 100% de concentração”.

Art of rally abraça essa sensação sem pestanejar e, apesar do foco no uso de um controle, ele chega em momentos ser mais real do que os próprios “simuladores” como DiRT Rally 2.0. Cada década (70/80/90) traz o seu conjunto de desafios, veículos que respondem de maneira diferente nas curvas, com pontos de frenagem e aceleração bem variados. Uma hora você está no controle e em um pestanejar você não está mais. Seu carro foi para uma vala,  bateu em uma pedra, aquaplanou na chuva torrencial no Japão ou deslizou no gelo durante um rally na Noruega.

Eu não era capaz de completar mais de uma temporada sem parar para relaxar os ombros, respirar um pouco. Era a exaustão de prender a respiração e trincar os dentes a cada curva fechada, o medo de ficar em segundo lugar por ter feito alguma besteira no começo da corrida, a decepção em ouvir o ronco do motor sair mais fraco — provavelmente por causa de alguma batida ou tropeço meu.

Mas quando a vitória vinha — quase sempre suada, por milésimos de segundo de diferença — era uma explosão de felicidade. Eu tinha dominado — mesmo que seja só uma mera categoria, ou por algumas horas — o que havia resistido por tanto tempo. Será que era por isso que os pilotos daquela época se arriscavam tanto? Esse fugaz momento de glória? A endorfina liberada quando você vê o confete cair, os aplausos?

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Se você não se apaixonar pelos carros, vai se apaixonar pelas pistas.

Ainda que isso possa ter um fundo de verdade, as competições são realizadas no conforto do meu lar, não em um terreno acidentado cuja morte aparenta me acompanhar a cada pisada do acelerador. Como uma pessoa que não acredita em ídolos e às vezes luta para compreender por que alguém se colocaria nessa posição, art of rally abriu os meus olhos para possíveis respostas.

Frente a este fervoroso sonho repleto de cores, à interligação entre realidade e nostalgia, art of rally é como viver dentro de um poster dos anos 70/80/90 acompanhado por uma trilha sonora fantástica para colorir ainda mais o período, mas com a mentalidade e experiência que temos em 2020. Ele aponta a glória do esporte, mas também nos relembra que o passado não é tão… “glorioso” quanto parece. Nos comenda em medalhas e louros, mas não esquece de apontar que só é possível recriar essas categorias dentro do conforto das nossas casas depois de muitas tentativas, erros, decisões muito necessárias de órgãos regulamentares.

Se pudesse reduzir art of rally em uma única frase, seria o cerne de uma das suas conquistas: “se você está no controle, é porque você não está rápido o suficiente”. Então, aceite perdê-lo, aceite arriscar, mas também se lembre todo o caminho percorrido pelo esporte para que isso fosse possível.

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Total - 10

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Uma fantástica recriação da época de ouro do rally, sem esconder — seja pela jogabilidade ou por pequenas descrições de cada categoria presente — as facetas mais perigosas do esporte, a sua história, o que ganhamos e perdemos com ela. Banhe-se de glória, domine cada pista, mas saiba que tudo isso teve e tem um custo físico e mental.

Análise – art of rally

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.